quarta-feira, 25 de julho de 2012

Estas baías

I
exponho a curva vencida do meu sexo
ao silêncio das aves e às marés
de chumbo desta ausência.

... estas praias exíguas...
... o precipício e as brisas...
... o dorso inerte destas águas lisas...
...o sol à retaguarda
e o mar virado ao leste...

a tarde cai na concha devoluta do meu peito.
exausto me devolvo à pedra
e ao coração de um animal cansado.

II
do alto da falésia
aguardo um breve instante de prenhez nocturna
que ao continente me devolva inteiro.

da noite eu sei
todo o rumor da gesta mineral
no acto de ferver as gerações passadas.

deslizo a carne eréctil de uma orgânica torrente.

estou no regaço vítreo dos desertos.

III
da noite eu sei
- porque lhe estou a prumo no regaço
e a vejo prolongada pelos meus dedos
e dela me arborizo até ao florescer das madrugadas -

da noite eu sei - dizia - 
que uma semente dada ao sol e às mãos
em carne há-de animar uma estação
de águas e corpos, sucessões e bênçãos.

IV
pelo que sei da noite
da sua orografia de vulcões expectantes
e da carnal leitura
de algumas profecias

deste oriente vago me rejeito.

assumo um corpo que armazena a noite
para expeli-la exausto e se encontrar
na identidade súbita da cor.

estou no regaço enxuto das manhãs
estou no regaço vítreo dos desertos.

floresço o breve instante das entregas.
vou devolver-me ao ventre das nações.

Ruy Duarte de Carvalho

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