segunda-feira, 2 de julho de 2012

Da boca da noite surgiram mendigos

I
da boca da noite surgiram mendigos
vinham com a ganga dos operários
o terno dos escriturários
o vestido das dactilógrafas
e os sapatos duma miséria limpa...

e os ombros foram frágeis e fortes
a suportar o mundo.
tudo se deu
para restar apenas a virtude
de ter sobejado a vida.

a vida:
- miséria e fome.
a vida a bater a asa do alento
na coragem do dia a dia.

vida de olhos vagos
de paisagem despida.
vida, sem aroma
e sem fruto
suportando-se apenas.

vida-narcótico
de festas, cinemas.
afogando cuidados de hoje
e de amanhã.
vida de traços vagos
e confusos.

a amortalhar o cérebro
num sonho místico
de formas múltiplas sem grandeza.

ânsia de jazz
de ritmos partidos
de carne
sem ossos.

vida de futilidades
sempre novas.
a degladiar desesperos
mas que de noite acordam
para pesadelos tétricos.

vida - guerras que se levantam
de ideais sem nome.
ao fogo dos ideais
das carnes que consomem
o homem.

o homem que no desespero acorda
e põe laivos de sangue
numa aurora longínqua.

II
da boca da noite surgiram mendigos
vomitados por uma cólera feroz.
(vulcão da chama de outros dias,
dos que não querem esmola)

apenas no rosto
a boca torcida.
os braços convulsos.
um ronco na voz

os olhos de chama
queimando fogueiras...

os passos unidos
de tantos
em tantas
pancadas certeiras.
rasgavam a noite
subindo montanhas.
um canto
profundo
agora
na voz.

a voz dos homens
que amam a vida
tal ela é:
de sonho e de carne
de ideais e luta
mas vida vivida.

necessidade humana
animal de comida
de braços bem livres
de algemas na fome.
livres como asas de pássaros
a ganhar a altura
que o cérebro consente.
livre.
mais livre espaços
rasgados da vida
o caminho aplanado
do homem 
para as eras futuras.


Alexandre Dáskalos

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