domingo, 1 de julho de 2012

ARISTIDES VAN-DÚNEM


(...)
Inês continuava a sua marcha rumo a casa. Agora caminhando a passo lento, distraindo-se a ver com atenção as maravilhas que a cidade oferecia: muitos prédios, casas com lindos jardins, ao longo das ruas muitos automóveis de luxo, e nas montras das lojas... tecidos estampados e manequins com lindos vestidos.
Viam-se também chapéus e vistosos sutiens em latex, que os seus olhos cobiçavam. - Inês olhou para o seu peito. Reparou, que seios não lhe faltavam para tão rica peça e riu-se. Um dia, haveria de comprar daqueles sutiens em cor azul que eram os mais bonitos. Mas chapéu, chapéu não! ela não achava bonito os chapéus, nem as senhoras que usavam chapéus ficavam mais bonitas, pelo contrário, tornavam-se feias.
desceu a avenida, subiu a calçada e parou no mercado. junto à estátua da Maria da Fonte, sentou-se comodamente num banco, e ficou a olhar com curiosidade para os carros que passavam.
O panorama da cidade era o que mais lhe agradava nas caminhadas que fazia de automóvel para a casa do senhor de cachimbo.
Quando via um automóvel conduzido por uma  mulher, abanava a cabeça e dizia: ai aii aiii senhora!... - dava-lhe uma vontade de ir com ela passear pela cidade, ver toda a beleza até cansar-se e viver. Mas tudo isso era apenas um desejo que lhe aumentava mais a insatisfação em que vivia.
Passavam muitas senhoras bem trajadas, com vestidos de seda estampados, de tacão alto, brincos, e colares no pescoço. Tudo isso aumentava as preocupações de Inês que se esforçava por compreender porquê uns tinham tanta coisa e outros tinham que vender o corpo para ganhar para viver. E a sua pergunta, era sempre a mesma, cada vez mais firme: - porquê que brancas tem tudo, tem carro, e preta não? e mulher branca não faz vida de puta?
Inês ouviu muitas vezes falar numa casa lá para os lados do morro da Maianga, onde havia senhoras brancas, que davam o corpo para ganhar dinheiro.
Inês não acreditou.
- Num pode! branca tem tudo, não precisa de abrir as pernas a fazer má vida para ganhar dinheiro para comer e vestir.
(...)




Nasceu em Luanda em 1937. Iniciou a actividade politica ainda estudante, que lhe valeu várias prisões. Participou na delegação do MPLA nas negociações de paz com o governo português. Após o 25 de Abril foi secretário-geral da União Nacional dos Trabalhadores Angolanos. Assinou a proclamação da União dos Escritores Angolanos.


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