domingo, 29 de julho de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Profecia


já não há luar porque a noite morreu.
chorai vós, poetas - que eu canto o sol no apogeu.


António Jacinto

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Estas baías

I
exponho a curva vencida do meu sexo
ao silêncio das aves e às marés
de chumbo desta ausência.

... estas praias exíguas...
... o precipício e as brisas...
... o dorso inerte destas águas lisas...
...o sol à retaguarda
e o mar virado ao leste...

a tarde cai na concha devoluta do meu peito.
exausto me devolvo à pedra
e ao coração de um animal cansado.

II
do alto da falésia
aguardo um breve instante de prenhez nocturna
que ao continente me devolva inteiro.

da noite eu sei
todo o rumor da gesta mineral
no acto de ferver as gerações passadas.

deslizo a carne eréctil de uma orgânica torrente.

estou no regaço vítreo dos desertos.

III
da noite eu sei
- porque lhe estou a prumo no regaço
e a vejo prolongada pelos meus dedos
e dela me arborizo até ao florescer das madrugadas -

da noite eu sei - dizia - 
que uma semente dada ao sol e às mãos
em carne há-de animar uma estação
de águas e corpos, sucessões e bênçãos.

IV
pelo que sei da noite
da sua orografia de vulcões expectantes
e da carnal leitura
de algumas profecias

deste oriente vago me rejeito.

assumo um corpo que armazena a noite
para expeli-la exausto e se encontrar
na identidade súbita da cor.

estou no regaço enxuto das manhãs
estou no regaço vítreo dos desertos.

floresço o breve instante das entregas.
vou devolver-me ao ventre das nações.

Ruy Duarte de Carvalho

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sussurrava a luz dessa noite sem fim


foste quem a despertar suavizava
o medo contado à vida;

sussurravas o corpo destapavas
os ouvidos;

tu espevitas a canção que agita
a revolta cirúrgica
dum mundo em desconstrução.

e das vértebras às frases
recompões os caminhos andados;

é a sussurrar que revives fantasmas
cheios de teus ouvidos: espaços mortos,
falecidos. outras raivas,

a regurgitação dos barcos que desciam
pelo fundo da córnea.

no fim és muda, apenas dum olhar
que escorre trevas; ou duma fenda
que atravessa o barco do corpo.
pela garganta que afundava meus remos.

João Tala

domingo, 15 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

As sirenes em Maio

... e os gritos das sirenes
dilaceram a noite
e invadem a cidade
nossas grutas de silêncio
e penetram nas ruas e nos corpos
e rasgam as pálpebras fechadas para as mortes
que adivinhamos em cada tiro
e enterram nos corações a seiva do tremor
que nos vai agitar os dedos.

os gritos das sirenes em maio
ferem fundo.

nos nossos olhos        antigas lagoas
brota sangue

ao romper do dia
as sengas de esperança
emergem daquela cor.

Arnaldo Santos

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Infância

oh! como estão longe
as manhãs da infância!...
o céu desvairado de perfume e azul
e a "menina-princesa"
no terraço,
com a alma acesa
e embriagada de perfume e azul...

as mãos! - borboletas
inquietas
desventrando mistérios,
espargindo milagres e luar - 
mãos de menina
no destino de esperar...
esperar...

"moura-encantada"
no fascínio do próprio sonho
impreciso e flutuante...
menina enfeitiçada 
de asas transparentes
a extravasar ternura
e amor,
na incessante procura
do paraíso-maior

a menina que eu fui!
distante... distante...


já nada tem importância!

já nada tem importância
para a ave que voou
perdeu penas na distância
e um caçador alvejou...

já nada tem importância!

e na parede da vida
o passado que rolou
é uma "natureza-morta"
dum pintor que se matou...



Amélia Veiga

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A uma menina

Dedicado ao IImº Sr F. T. Lobo Júnior

como és bela, criancinha,
no teu dormir inocente,
és tão meiga, és tão lindinha
nesse arfar tão docemente!
semelhas às linda flor
no albor,
com primor,
entreabrindo brandamente:
és tão bela,
qual estrela
a brilhar no céu - fulgente!

és qual límpida corrente,
mimosa e bela e pura,
que rebenta docemente
de um rochedo em grande altura.
és o orvalho matutino
gotejando,
rorejando,
sobre viçosa verdura:
és a aragem
na folhagem
bafejando-a com doçura.

és farol, és doce guia,
no teu dormir inocente,
de quem à meiga poesia
se há votado e não desmente
a verdade e melodia
que na lira
só respira,
só respira vagamente.
que poeta, 
qual profeta,
canta da alma, e nunca mente.

és singela, alva pombinha
repousando em tronco anoso,
quando a sós, e coitadinha
no seu ninho tão mimoso
outra pomba a acarinha
com candura,
com doçura,
em seu sono de almo gozo:
és como ela,
meiga e bela
neste encanto primoroso.

és o suspiro da vaga
no seu longínquo morrer,
que lentamente divaga
na encosta que vai bater.
és a saudade da vida
tão querida
já volvida,
já volvida em meu viver.
és esp'rança
de bonança
de quem da vida descrer.

tu és tudo, e mais ainda
de teus pais és doce encanto,
que imprimiram em face linda
inocência em brilho tanto,
que em mago e doce enleio,
de amor cheio,
casto seio
recebe o meigo pranto,
quando choras
e descoras,
envolta em cerúleo manto.

cresce, cresce, flor mimosa,
nesse teu desabrochar;
nunca a vida desditosa
em ti possa penetrar,
nunca os rigores da sorte
desesp'rada,
malfadada,
possa bárbara mirrar
essa flor
de primor
que espontânea se pousou
na minha lira de amor,
que este canto inspirou!

Maia Ferreira


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Amanhecemos

dos capins secos-verdosos dos ventos areal pitanga
todos cantos
nossos cantos          os galos das manhãs ngolas
povoação ao povo
cântigo novo
kuku kukuééé
mumu mumuééé            kuakiééé
amanhecemos



a festa reverdesce menino o luto das queimadas
as tetembua pirilampeando
outro clarear
kimenemene gargalhos
sangas e fontes se beijam
no kuakiár os pássaros voados

Jorge Macedo

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Cantiga da mana Zefa


ainda me lembro dela
matrona forte desengonçada
tinha sempre uma oração nos olhos
uma canção nos lábios grossos

dorme menino dorme
oh! oh! oh! oh! oh!
cazumbi não está vir
mana zefa tá lh’olhar

tinha ciúme do menino
de quem mana zefa falava com paixão
um dia perguntei com ansiedade
se o menino seria assim como eu

mana zefa olhou-me tristemente
e com lágrimas na voz cantou
- não fala assim meu menino
deus não faz filho mulato

Ruy Burity da Silva

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Da boca da noite surgiram mendigos

I
da boca da noite surgiram mendigos
vinham com a ganga dos operários
o terno dos escriturários
o vestido das dactilógrafas
e os sapatos duma miséria limpa...

e os ombros foram frágeis e fortes
a suportar o mundo.
tudo se deu
para restar apenas a virtude
de ter sobejado a vida.

a vida:
- miséria e fome.
a vida a bater a asa do alento
na coragem do dia a dia.

vida de olhos vagos
de paisagem despida.
vida, sem aroma
e sem fruto
suportando-se apenas.

vida-narcótico
de festas, cinemas.
afogando cuidados de hoje
e de amanhã.
vida de traços vagos
e confusos.

a amortalhar o cérebro
num sonho místico
de formas múltiplas sem grandeza.

ânsia de jazz
de ritmos partidos
de carne
sem ossos.

vida de futilidades
sempre novas.
a degladiar desesperos
mas que de noite acordam
para pesadelos tétricos.

vida - guerras que se levantam
de ideais sem nome.
ao fogo dos ideais
das carnes que consomem
o homem.

o homem que no desespero acorda
e põe laivos de sangue
numa aurora longínqua.

II
da boca da noite surgiram mendigos
vomitados por uma cólera feroz.
(vulcão da chama de outros dias,
dos que não querem esmola)

apenas no rosto
a boca torcida.
os braços convulsos.
um ronco na voz

os olhos de chama
queimando fogueiras...

os passos unidos
de tantos
em tantas
pancadas certeiras.
rasgavam a noite
subindo montanhas.
um canto
profundo
agora
na voz.

a voz dos homens
que amam a vida
tal ela é:
de sonho e de carne
de ideais e luta
mas vida vivida.

necessidade humana
animal de comida
de braços bem livres
de algemas na fome.
livres como asas de pássaros
a ganhar a altura
que o cérebro consente.
livre.
mais livre espaços
rasgados da vida
o caminho aplanado
do homem 
para as eras futuras.


Alexandre Dáskalos

domingo, 1 de julho de 2012

ARISTIDES VAN-DÚNEM


(...)
Inês continuava a sua marcha rumo a casa. Agora caminhando a passo lento, distraindo-se a ver com atenção as maravilhas que a cidade oferecia: muitos prédios, casas com lindos jardins, ao longo das ruas muitos automóveis de luxo, e nas montras das lojas... tecidos estampados e manequins com lindos vestidos.
Viam-se também chapéus e vistosos sutiens em latex, que os seus olhos cobiçavam. - Inês olhou para o seu peito. Reparou, que seios não lhe faltavam para tão rica peça e riu-se. Um dia, haveria de comprar daqueles sutiens em cor azul que eram os mais bonitos. Mas chapéu, chapéu não! ela não achava bonito os chapéus, nem as senhoras que usavam chapéus ficavam mais bonitas, pelo contrário, tornavam-se feias.
desceu a avenida, subiu a calçada e parou no mercado. junto à estátua da Maria da Fonte, sentou-se comodamente num banco, e ficou a olhar com curiosidade para os carros que passavam.
O panorama da cidade era o que mais lhe agradava nas caminhadas que fazia de automóvel para a casa do senhor de cachimbo.
Quando via um automóvel conduzido por uma  mulher, abanava a cabeça e dizia: ai aii aiii senhora!... - dava-lhe uma vontade de ir com ela passear pela cidade, ver toda a beleza até cansar-se e viver. Mas tudo isso era apenas um desejo que lhe aumentava mais a insatisfação em que vivia.
Passavam muitas senhoras bem trajadas, com vestidos de seda estampados, de tacão alto, brincos, e colares no pescoço. Tudo isso aumentava as preocupações de Inês que se esforçava por compreender porquê uns tinham tanta coisa e outros tinham que vender o corpo para ganhar para viver. E a sua pergunta, era sempre a mesma, cada vez mais firme: - porquê que brancas tem tudo, tem carro, e preta não? e mulher branca não faz vida de puta?
Inês ouviu muitas vezes falar numa casa lá para os lados do morro da Maianga, onde havia senhoras brancas, que davam o corpo para ganhar dinheiro.
Inês não acreditou.
- Num pode! branca tem tudo, não precisa de abrir as pernas a fazer má vida para ganhar dinheiro para comer e vestir.
(...)




Nasceu em Luanda em 1937. Iniciou a actividade politica ainda estudante, que lhe valeu várias prisões. Participou na delegação do MPLA nas negociações de paz com o governo português. Após o 25 de Abril foi secretário-geral da União Nacional dos Trabalhadores Angolanos. Assinou a proclamação da União dos Escritores Angolanos.