quarta-feira, 27 de junho de 2012

Trazias tanto mar na pele dos dedos

trazias tanto mar na pele dos dedos
onde o teu corpo é sempre o meu princípio
de nunca querer chegar
ao fim a voz da vaga
quantas vezes te disse e te cantei?
quantas vezes sal de pôr na boca
quantas vezes concha seios de maré
búzio de carne
um leito de água no teu ventre
de marulhado espasmo musical?

e quando a água aquecia nossa fúria
quantas vezes sentimos que o mar não era tudo
e os olhos queriam mais no meio dos ruídos cazuarinos
um ximbicar nas coisas sem limite.

mas põe o nosso corpo nestas dunas
de sol pleno e todo destapado
alimentando o lago da miragem
que se descobre na esquina onde só era
o nu da luz na escassez de arbustos
de um pouco-a-pouco deste ar sopro quente
que a nossa boca expira para a boca
e nossos olhos prolongam para sul.

aqui pressinto o que faltava quase
ao nosso mar
para que fosse a imensidão
mais simples mais essencial.
ouve-me então nesta coragem de planta
amor eu penso a minha curva de welwitchia
erecta em solidão da tua ausência
depois que trouxeste tanto mar na pele dos dedos.

Manuel Rui

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