sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pergunta


para meu pai

tu
que lá em Benguela
tinhas saudades do minho
expressas
em todos os teus olhares saudosos
em todas as conversas

tu
que sempre recordavas lá tão longe
a tua terra distante
o teu portugal de menino

porque
meu pai
me negas o direito simples
de amar a minha terra
a minha angola
porque me negas todos os dias
a todas a horas
o direito sagrado
de ter saudades da minha terra
de olhar com os olhos embaciados
mas contentes
de escrever longas cartas inconsequentes
de ter longas conversas melancólicas
sobre a minha terra desflorada
a minha angola adiada?

serei poeta também
adiado como a minha terra
eu negarei pai e mãe
pela minha terra
três vezes como pedro
o apóstolo
negou cristo
três vezes antes do galo cantar
no raiar da madrugada.

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Trazias tanto mar na pele dos dedos

trazias tanto mar na pele dos dedos
onde o teu corpo é sempre o meu princípio
de nunca querer chegar
ao fim a voz da vaga
quantas vezes te disse e te cantei?
quantas vezes sal de pôr na boca
quantas vezes concha seios de maré
búzio de carne
um leito de água no teu ventre
de marulhado espasmo musical?

e quando a água aquecia nossa fúria
quantas vezes sentimos que o mar não era tudo
e os olhos queriam mais no meio dos ruídos cazuarinos
um ximbicar nas coisas sem limite.

mas põe o nosso corpo nestas dunas
de sol pleno e todo destapado
alimentando o lago da miragem
que se descobre na esquina onde só era
o nu da luz na escassez de arbustos
de um pouco-a-pouco deste ar sopro quente
que a nossa boca expira para a boca
e nossos olhos prolongam para sul.

aqui pressinto o que faltava quase
ao nosso mar
para que fosse a imensidão
mais simples mais essencial.
ouve-me então nesta coragem de planta
amor eu penso a minha curva de welwitchia
erecta em solidão da tua ausência
depois que trouxeste tanto mar na pele dos dedos.

Manuel Rui

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tambor


canta tambor, canta tambor
sensual, quente, grita e clama
que uma só hora de amor
queima a vida numa chama

não há voz mais pura
para embalar cantos de amor
que a voz quente do tambor
batucando a noite escura...

canta tambor, rufa tambor
sensual, quente, grita e clama
que uma só noite de amor
queima a vida numa chama.

Neves e Sousa

domingo, 24 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ao longo da estrada

ao longo da estrada
passou uma sombra
de mágoa e de cor!

perdi-me na sombra
e vi-me na estrada
coberta de pó.

a luz apagou-se!
a sombra sumiu-se.

e erguida em dois traços
abrindo-me os braços
surgiu uma cruz!

Maria Joana Couto

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Enxertia

teu corpo mulata
é o corpo da vida nova
é o corpo do futuro.

olha para ti
descansa os olhos sobre as coisas
desenha com os dedos na areia
a nossa humana geografia

verás as rosas enxertadas nas acácias
darem flores mais belas que elas próprias.

Costa Andrade

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Noite

eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

vou pelas ruas 
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

são bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

também a noite é escura.

Agostinho Neto


domingo, 17 de junho de 2012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pelo sol que faz

pelo sol que faz
na noite
de azul
se afogará quem não sabe nadar
do tiro
não é o estrondo que mata
e o odor a pólvora não atrai abelhas
a morte é muda
e livros não sabem ler
cacos do arco-íris
são teus olhos
e pra chorar
eles não roubam a água das cacimbas
pela noite que faz
no sol
de redondo
se queimará quem não sabe dançar

Arlindo Barbeitos

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Alucinação


choram os murilaondes
o sangue dos homens
vertido inutilmente…
a língua bifurcada
dos iniciados
é tocada
com o dente da serpente
e os tambores gemem
na profundeza verde-escura
da selva
a palavra maldita:
- cálua, cálua, cálua!!!
a lua,
mutunga brilhante
no olundongo
entoado pelas nuvens,
semeia sombras confusas
de comedores-de-almas
espalhando-se pela terra…
dos eumbos
elevam-se gritos de dor…
no mato,
as hienas dançam
ao som ritual
das mbulumbumbas
e os seus olhos
chispando fogo
são corações humanos
transformados em brasas…
(a floresta retorce-se toda
num esgar de sofrimento)
e, de longe,
no ribombar dos trovões,
os tambores gargalhantes
dos ngngas…
nos eumbos,
a seiva vermelha
alucinada
banha os olhos dos homens…
… o irmão mata o seu irmão!...

Jorge Arrimar

segunda-feira, 11 de junho de 2012

As paredes

essas nuvens já não serão minhas.
as minhas serão as paredes nutridas de janelas.
entre as paredes adormecidas
abraçarei as árvores sonoras e estranhas.

o silêncio caminhará pelas paredes.
as casas amargas irão aterrar na história.
os meus dedos irão palpar novas paisagens
e as minhas nuvens falarão com voz indiferente.

essas nuvens já não serão minhas:
serei o relevo da geografia do amor,

serei a folha do mato público
que se solta indo beijar as nuvens da alegria.

João Maimona

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Que outro nome

que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim     crepitando
baixo. que palavra
por ele nasce

e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. que outro nome
te demos
vestida     e no escuro desposada.

liberdade.

que tempo de
ocultar o nome sabíamos 
perder e nem

de moscardo zumbias: ngola

nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.

liberdade.

quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.

liberdade.

David Mestre


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nos caminhos sombrios da vida

caminho nas sombras do jardim
calcando as folhas que o outono encarquilhou...

mas o que é  isto?
que toques de clarim
acordam os relvados e os pavões adormecidos?

então a vida não acaba assim
num enlanguescer de outono,
como um sonho esvaído ao chegar da manhã?

beijo as árvores!
para além deste jardim
outros jardins, outras árvores,
cidades, mares, outros corações
onde palpita o mesmo frémito de sonho,
onde se alteia a mesma onda embravecida!
estendo as mãos agradecida,
e sei que não estou só
nos caminhos sombrios da vida...

Lília da Fonseca

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O feitiço do batuque

sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
é a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.

tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
e meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quando o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.

músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus ímpetos carnais.
o batuque ressoa-me nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra e fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuído de magia!

a batucada tem feitiço eterno.
o batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais terá fim,
nem mesmo além do céu e além do inferno!

Geraldo Bessa Victor





domingo, 3 de junho de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pausa para o amor


vem, ninfa das manhãs nevoentas
no beijo de espuma.
vem
com a mais terna canção do búzio
contando de novos mundos
e a melodia duma cascata
na raiz do sorriso

vem!,
e dá-me a carícia sem par
do teu olhar

Jofre Rocha