segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lucília, do Cunene

na penumbra
do quarto
estavas mais negra ainda
e mais linda.

puseste as mãos
 a segurar a nuca
e, num meio espreguiçar,
disseste: "espera, não vás,
vamos conversar."

e eu fiquei.
beijaste-me outra vez,
um beijo, dois...

depois
começaste a contar-me
coisas da tua gente, 
do rio grande
que é vida e é fronteira;

contaste a história da verdadeira
do teu velho
que nas noites de vigília,
só tem por companhia
uma metralhadora e um punhal.

contaste-me, lucília,
dos teus medos e das saudades
que tens da tua filha.

contaste-me da chuva, 
falaste das mafumas,
disseste da amizade
que o rio tem por vós.

vezes, algumas,
paravas para beijar-me.
era de madrugada quando adormecemos.

Aires de Almeida Santos


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