quarta-feira, 30 de maio de 2012

Oferta

sou a quitandeira mais doce
que todos os doces de coco,
minha boca é tão docinha
como a fruta da minha quinda.
tenho os seios para dar
duas laranjas do loje,
tenho nos olhos pitangas
tão boas de namorar…

tenho sol na barriga
e doçura da manga nos braços,
quem quer a minha vida
pra adoçar os seus cansaços?

António Cardoso


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lucília, do Cunene

na penumbra
do quarto
estavas mais negra ainda
e mais linda.

puseste as mãos
 a segurar a nuca
e, num meio espreguiçar,
disseste: "espera, não vás,
vamos conversar."

e eu fiquei.
beijaste-me outra vez,
um beijo, dois...

depois
começaste a contar-me
coisas da tua gente, 
do rio grande
que é vida e é fronteira;

contaste a história da verdadeira
do teu velho
que nas noites de vigília,
só tem por companhia
uma metralhadora e um punhal.

contaste-me, lucília,
dos teus medos e das saudades
que tens da tua filha.

contaste-me da chuva, 
falaste das mafumas,
disseste da amizade
que o rio tem por vós.

vezes, algumas,
paravas para beijar-me.
era de madrugada quando adormecemos.

Aires de Almeida Santos


domingo, 27 de maio de 2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Feiticeiro

tu me enganaste e mentiste,
tu me disseste naquele dia,
que ela me gostava,
que ela me gostava e me traía.

..............................................

aquele dia era noite,
aquela noite era luar...

..............................................

tu me disseste, feiticeiro,
que ela me gostava,
que ela me gostava e me traía.

...............................................

e a lua, lá em cima,
cúpula de noite,
catedral de estrelas,
a lua era a minha religião,
a minha arte, o meu sonho,
- e a minha fantasia...

.................................................

tu me enganaste, feiticeiro.
mas se tu não me enganasses
eu morria!

Tomaz Vieira da Cruz


quarta-feira, 23 de maio de 2012

O amor e o futuro

calar
esta linguagem velha que não entendes
(tu és naturalmente de amanhã
como a árvore florida)
e falar-te na linguagem nova do futuro
engrinaldada de flores.

calar
esta saudade velha
e a nostalgia herdada de brancos marinheiros
e de escravos negros
de noite sonhando lua
nos porões dos negreiros.

calar
todo este choro antigo
hoje disfarçado em slow, bolero e blue
(teu sentimento
e esta pressão dorida que não mente:
teus seios contra o meu peito
a tua mão na minha
o calor das tuas coxas
e os teus olhos ardentes...)

calar tudo isso
(tu és naturalmente do futuro
como a árvore florida)
e ensaiar o canto novo
da esperança a realizar.
cantar-te
árvore florida
espera de fruto
antemanhã

nascer do sol em  minha vida.

Mário António


segunda-feira, 21 de maio de 2012

O corpo antigo

a porta larga do curral ficou pequena
todos queriam entrar ao mesmo tempo
olhar teu corpo antigo
tu o da garça branca que planava nas alturas
tu o mais esperto que o milhafre
tu o filho da multidão
o chamador da chuva
o bicho cinzento das mulheres
voltaste mudo e sem o arco
meu marido
e nem sequer pude ofertar-te
a pulseira do clã
a erva do sacrifício
as doces coxas das rãs
o meu cabelo.

Paula Tavares

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Revolta

quero, e não quero!...
creio... e desespero!...
renego, mas aspiro,
e em cada vira-volta,
mais grito e mais me firo!...
aonde esperei, não espero!...
aonde desejei, já não desejo,
e se algum dia vi,
hoje não vejo!...

deus... ó deus!...
para que lado ficam os teus céus?!...

Alda Lara

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Morreu Maurício de Almeida Gomes



Com a morte de Maurício de Almeida Gomes, no passado dia 2 de Abril em Lisboa, aos 92 anos, Angola fica mais pobre.
Um dos grandes nomes da poesia angolana, em meados do século XX Gomes foi importante para o despertar da consciência do momento que se vivia.
O seu poema “Bandeira” é premonitório pois já fala das cores que viriam a ser as da bandeira nacional.
Realço que a sua importância na poesia angolana, não merecia a enorme gafe que aqui fiz referência. Mas, enfim, a força dos tempos.
Um dos seus netos, o cineasta João Paulo Simões, iniciou recentemente a tradução dos seus poemas para a língua inglesa.
À família o “Angola: os poetas” apresenta as mais sentidas condolências.
Até sempre, Gomes.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Para pisar um chão com estrelas

imitando-me ao morcego
intimidei o dia a ser mais vertical.
assim o céu ganhou pés
a terra experimentou alturas.
apressas, pedi:
uma noite se antecipasse.
transfigurando conceitos
o palco do mundo vincava-se
de novas encenações.
estrelas chegavam.
lua teve dúvidas para posicionar-se.
encaminhando
andei sobre o céu sob meus pés.
assim revelei-me:
nunca é impossível
pisar um chão de estrelas.
...
logo-logo:
um grilo atirou-se a sorrisos.

Ondjaki



domingo, 13 de maio de 2012


Monumento às heroínas angolanas

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Coisas lilases


as coisas lilases são as bonitas
e surpreendentes, embora haja coisas que
também o são, e talvez mais.
sonhos lilases (as flores), e vestidos lilases,
e as olheiras lilases das heroínas
dos romances românticos.
lilás é bom. e doce. entristece-nos e
reconforta-nos. o meu pensamento,
neste momento, é lilás.
hei-de enviar-te um ramo de lilases,
com um cartão escrito em tinta lilás.
lê-lo-ás, ao cartão escrito em tinta lilás,
e aqui e ali rirás, sabe-se lá. um riso
lilás. helás!


Antero Abreu

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Tempo da memória

memória dúbia,
assim te aceito
antecipando o futuro já.

tua raiz é liame inevitável
e madre nossa corrupta,
parceira da razão parda.

memória impertinente
és,
nas montras, monstro familiar
e nos cafés e nos livros,
ao lado do volante,
nos vultos, nos gestos, carícias, até...
a sua sombra.

e no resto,
estrume em requintado canteiro
de poesia ou versos só,
mas, queira deus, flores também,

mesmo proibidas de colher...

Tomaz Kim

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Palavra indolor


a palavra indolor tu a tens livre
tu afagas a palavra que mais se sente
tu a aproximas de mim é pequena e dura
começa na consciência
resolve-se em barulho;
dizem mesmo que cabe dentro de uma rosa
pode ser uterina como um mioma
pode ser cutânea uma cicatriz
também gestante gemido palavreado;
mais cabe em ti repousada. lírica. roliça.
com ela mato a sede.

João Tala

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Self-Ultimatum


tanto me faz…
escrevo unicamente
os meus versos
deixei de medir o tempo
e as datas
já não preocupam
nem quero saber dos dias
que passam
onde marco e escrevo
os meus poemas tecidos
à luz acimentada
do sol ou do luar.

desiludi-me!
escrevendo
espero unicamente
o dia do meu komba.

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 2 de maio de 2012

À saudade

inda choro essa noite medonha
longa noite de má despedida!
teu amor me deixas e nos braços,
nos teus braços levaste-me a vida!

A. Gonçalves Dias


não sei que mão de ferro agudo alçada
com força extrema me comprime o peito,
não sei que dor vigente me lacera
as fibras da alma.

escuto os homens que julgava amigos -
envoltos no prazer do mundo ingrato -
mostro-lhes minha dor - a causa inquiro -
voltam-me o rosto!

escuto as aves no albor do dia
em verdes campos cantando amores;
contemplam de amargura o meu sorriso
e ávidas fogem!

então procuro as grimpas das montanhas
onde outrora meus ecos ressoavam
vibrados pela lira em que tangia
cânticos suaves!

e meus ecos não são repercutidos
agora que a saudade os vibra na alma
- saudade?! -ai! tu és meu sofrimento
na alma o sinto!...

Maia Ferreira