segunda-feira, 12 de março de 2012

Um dia

Ao António Jacinto

um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar silva porto
e os pretos irem embora.
vai entrar a lua e meninos sem cor
a domingas quitata, o sô floriano do talho
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
vou meter as cabras e os cães vadios da velha espanhola,
os batuques da cidrália e dos invejados,
os batalhões do “treze” e do “setenta e quatro”,
o bêbado rebocho, o velho salambió,
a joana maluca da garotada,
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao mundo!

António Cardoso

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