domingo, 4 de março de 2012

RUY DUARTE DE CARVALHO



(…)
Volvendo o olhar para os lados do sul, à esquerda do sol, pelas cinco da tarde, o céu escurece, de azul carregado, por cima das copas no morro distante. Sinais de chuva.
Adriano Kapiapia, a meio do morro, roda sobre as pernas e estuda os sinais. Considera o céu por cima dos morros, pedras e moitos esmorecendo longe, distantes para além do mundo que sabe. Para o sul curtas vistas, e mesmo a nascente, extensões para o norte, também para poente.
Adriano Kapiapia apalpa o céu. Acima do recorte das ramagens, por sobre a encosta que lhe está em frente, aumenta a massa de uma nuvem espessa, negra e pesada, debruada a branco. No hemiciclo oposto o céu é claro, ainda, servido de uma luz azul e lisa. Olhando, todavia, para cima, e percorrendo a curva que vai de um extremo ao outro do horizonte, o céu vai escurecendo a pouco e pouco até se transformar, sem sobressalto, num fundo opaco para o debrum branco. Só o debrum, portanto, revela a nuvem espessa. Outras nuvens menores a precederam e estão espalhadas, soltas, pelo céu inteiro, sem atingir, contudo, o azul do norte, onde só há rajadas fugidias. E é este o céu, com o sol a meia altura e muito quente.
Na terra a luz mudou. A luz crua do sol mudou-se em labareda. A luz da labareda. O rectângulo de terra desbravada, que encosta a um dos lados do caminho, vive uma luz que dir-se-ia autónoma e crescente, de combustão oculta e prolongada. O mesmo com as pedras, com os troncos da mata, com a cinza jacente das derrubas do Outubro. É uma luz que emerge de repente. Da terra e das formas. As folhas, que são verdes, reflectem brilhos quentes nos rebordos, não como se existisse um céu dourado e fossem espelho, mas como se esse brilho as envolvesse e o ar buscasse as formas para exibir-se assim. Como se o céu, que aos poucos escurece, transferisse para a terra a luz que a tempestade de si expulsa. A luz de encontro à noite imposta pela tormenta. Sinais de chuva.
Adriano Kapiapia ausculta o som. O som e os sons. Extinguiu-se o som, o marulhar da vida toda acesa em confusão de origens e distâncias, a vaga e borbulhante amálgama dos gritos, dos ruídos, dos passos e dos voos. Agora há sons distintos, localizáveis fontes que vertem para o ar o seu sinal. Onde havia o sussurro há o silêncio. (…)