sexta-feira, 30 de março de 2012

Chuva

I
é a loucura dos trovões
esculpindo a música da água
em pedra do kandumbe ou da quissola.
é a faísca do ceú rachando a noite
e a terra treme.
é o cheiro. leve
das primeiras gotas.

II
estala o salalé no planalto
e voa antes da chuva. na infância
agarro esta memória quase gasta
de bichinhos encarnados de veludo
uma folha verde entre dois dedos
e havia flores amarelas e sem nome
podiam-se chupar que tinham mel
e um arco-íris em cada pétala
espelho de uma bruxa se ir pentear.

III
escorre-nos a chuva no corpo
como na rocha.
escorre-nos a chuva nos olhos
como no tempo
nas mãos como na força
e os pés da terra mole
abrigo de raízes.

IV
e a chuva mais miúda
batendo no pensar
gota a gota interior
de abrir o coração do sol
tão devagar?

Manuel Rui