sexta-feira, 30 de março de 2012

Chuva

I
é a loucura dos trovões
esculpindo a música da água
em pedra do kandumbe ou da quissola.
é a faísca do ceú rachando a noite
e a terra treme.
é o cheiro. leve
das primeiras gotas.

II
estala o salalé no planalto
e voa antes da chuva. na infância
agarro esta memória quase gasta
de bichinhos encarnados de veludo
uma folha verde entre dois dedos
e havia flores amarelas e sem nome
podiam-se chupar que tinham mel
e um arco-íris em cada pétala
espelho de uma bruxa se ir pentear.

III
escorre-nos a chuva no corpo
como na rocha.
escorre-nos a chuva nos olhos
como no tempo
nas mãos como na força
e os pés da terra mole
abrigo de raízes.

IV
e a chuva mais miúda
batendo no pensar
gota a gota interior
de abrir o coração do sol
tão devagar?

Manuel Rui

quarta-feira, 28 de março de 2012

Caprandanda

se eu puder
farei do tempo morto
uma fénix
e com a puíta do meu corpo
roncarei canculas nos terreiros
da minha vila.
despojarei o presente
da sua ameaça
e voltarei a usar no peito
nompandes da huíla.

se eu puder
guardarei os túmulos caprandanda
dos meus antepassados
e erguerei bem alto
os bastões de uma nova etanda
no tecto caído
dos seus jazigos profanados…

Jorge Arrimar

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pulso

irmão quase irmão
que dúvidas são essas
que trazem dormente?
- é só uma questão
e um caminho, e seguro:
vê como a terra obedece à semente...
(... nós somos a terra, irmão
de que brotará o pão
para matar as fomes do futuro...)

António Neto

domingo, 25 de março de 2012

"e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva."

sexta-feira, 23 de março de 2012

Do canto à idade

do canto à idade
a voz
a base e os materiais da lágrima
ouvida nos olhos

até ao sangue. do canto
à idade    a pouca palavra morte.
ouve-a
é o sinal que na doca dos teus dedos
leveda.

do canto à 
idade    cai a boca
medida: meu amor.

David Mestre

quarta-feira, 21 de março de 2012

Neta de escravos

na praia de quicombo olhando o mar,
como quem espera alguém que anda perdido,
a triste e linda ébo, a olhar, a olhar,
tem lágrimas no rosto humedecido

foram-lhe dizer, e ela em seu cismar,
ouviu a narrativa: " foi vendido,
na leva dos que foram trabalhar
p'ra terras do brasil, o avô querido.

que era o soba de toda a região..."
e agora, vê lá tu, não temos pão,
nós que tivemos os melhores mangais

....................................................
pois isto, há muitos anos, foi assim...
ainda espera quem não volta mais!

Tomaz Vieira da Cruz

segunda-feira, 19 de março de 2012

Gente na apanha do chá

borboletas multicolores
na poalha de chuva fina
a descer como cortina
no verdor sem flores
da plantação de chá.

mãos ágeis,
mutilam ramos frágeis.
noitinha: é tarde já…
mãos ágeis,
enchem cestos incolores
da poesia feminina
das tenras folhas de chá.
É noite.

borboletas incolores
na escuridão da cortina
de treva e de chuva fina
no frescor sem flores
da plantação de chá…

Neves e Sousa

domingo, 18 de março de 2012


http://misosoafrica.wordpress.com/ 



Da América Latina, "um espaço para a difusão da cultura africana, um convite para descobrir a sua diversidade de História e saberes"

sexta-feira, 16 de março de 2012

Companheiros

vinde companheiros!
que os vossos braços se abram
aos nossos braços de amigos.

- toma uma cadeira. senta-te. conta:
desditas, anseios, desventuras
e desse fulgor ardente que se adivinha
no teu olhar, cavado das viagens,
como uma estrela numa noite morta..

nós somos todos irmãos.

ah, quando te invadir a solidão
e olhares à volta e sentires apenas
a presença perturbável dos teus ombros,
não estás só!
vem até nós.
estarás comigo.
não será morta, a morta esperança
do teu olhar sem luz.

mas, que fôlego ingénuo na aventura
te lançou em tão inóspitos lugares
deixando assim o teu lar, amigo?
não contes, eu sei qual foi. foi
essa vontade de produzir, de criar, de vencer...

oh! nossa terra, oh nossa mãe!
como se casam em nós os prodígios
da tua natureza forte!
o húmus inculto das florestas
brota em nós, freme em nós, canta em nós
no grito de todos os gritos,
na ânsia da tua descoberta!...
o amor dos nossos corações
transborda da nossa alma
como a força impulsiva dos teus rios...

vês, companheiro, eu sou teu irmão,
toma a minha mão, dá-me a tua mão.

Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 14 de março de 2012

Picada de marimbondo

para o Pila
- companheiro de infância

junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo.

vinha zunindo!
cazuza!
vinha zunindo!
cazuza!

era uma tarde de janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

cazuza!
marimbondo
mordeu tua filha no olho!

cazuza!
marimbondo
foi branco quem inventou...

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um dia

Ao António Jacinto

um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar silva porto
e os pretos irem embora.
vai entrar a lua e meninos sem cor
a domingas quitata, o sô floriano do talho
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
vou meter as cabras e os cães vadios da velha espanhola,
os batuques da cidrália e dos invejados,
os batalhões do “treze” e do “setenta e quatro”,
o bêbado rebocho, o velho salambió,
a joana maluca da garotada,
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao mundo!

António Cardoso

sexta-feira, 9 de março de 2012

Conselho

não contem
com amanhã:
ontem
foi esperança vã...
seguro
só o hoje escuro
onde fermentam
forças que nos tentam:
um mosto 
no rosto
do apetite
essencial.
com ou sem limite
a natural
forma de vencer:
sobreviver.

Mário António

quarta-feira, 7 de março de 2012

Chuva em pranto

tanto chove
tanto tanto...

tanto tanto
está chovendo...

chovem lágrimas
de pranto!...

pranto em rios
vai correndo...

Maria Joana Couto

segunda-feira, 5 de março de 2012

Momento místico

ando a conversar com os ventos,
para que os ventos me contem, noite e dia,
histórias do quinjango e da rainha jinga.
e a voz dos ventos é uma eterna cantiga
(gritos épicos, líricos lamentos)
onde o meu verso escuta a voz da poesia.

converso com as chuvas e com os rios,
que contam a chorar contos da minha terra.
e é na chuva e no rio que meus olhos frios
descobrem o pranto ardente
onde a alegria se encerra
- e o meu verso encontra o ritmo fluente.

e converso com montes e nuvens – vultos vivos
de grandes negros mortos, tão livres, não cativos.
(aiué, quinjango, aiué!)
e na forma das nuvens e montes o meu verso,
tocado pela lenda e pela fé,
encontra a sua imagem e seu berço.

Geraldo Bessa Victor

domingo, 4 de março de 2012

RUY DUARTE DE CARVALHO



(…)
Volvendo o olhar para os lados do sul, à esquerda do sol, pelas cinco da tarde, o céu escurece, de azul carregado, por cima das copas no morro distante. Sinais de chuva.
Adriano Kapiapia, a meio do morro, roda sobre as pernas e estuda os sinais. Considera o céu por cima dos morros, pedras e moitos esmorecendo longe, distantes para além do mundo que sabe. Para o sul curtas vistas, e mesmo a nascente, extensões para o norte, também para poente.
Adriano Kapiapia apalpa o céu. Acima do recorte das ramagens, por sobre a encosta que lhe está em frente, aumenta a massa de uma nuvem espessa, negra e pesada, debruada a branco. No hemiciclo oposto o céu é claro, ainda, servido de uma luz azul e lisa. Olhando, todavia, para cima, e percorrendo a curva que vai de um extremo ao outro do horizonte, o céu vai escurecendo a pouco e pouco até se transformar, sem sobressalto, num fundo opaco para o debrum branco. Só o debrum, portanto, revela a nuvem espessa. Outras nuvens menores a precederam e estão espalhadas, soltas, pelo céu inteiro, sem atingir, contudo, o azul do norte, onde só há rajadas fugidias. E é este o céu, com o sol a meia altura e muito quente.
Na terra a luz mudou. A luz crua do sol mudou-se em labareda. A luz da labareda. O rectângulo de terra desbravada, que encosta a um dos lados do caminho, vive uma luz que dir-se-ia autónoma e crescente, de combustão oculta e prolongada. O mesmo com as pedras, com os troncos da mata, com a cinza jacente das derrubas do Outubro. É uma luz que emerge de repente. Da terra e das formas. As folhas, que são verdes, reflectem brilhos quentes nos rebordos, não como se existisse um céu dourado e fossem espelho, mas como se esse brilho as envolvesse e o ar buscasse as formas para exibir-se assim. Como se o céu, que aos poucos escurece, transferisse para a terra a luz que a tempestade de si expulsa. A luz de encontro à noite imposta pela tormenta. Sinais de chuva.
Adriano Kapiapia ausculta o som. O som e os sons. Extinguiu-se o som, o marulhar da vida toda acesa em confusão de origens e distâncias, a vaga e borbulhante amálgama dos gritos, dos ruídos, dos passos e dos voos. Agora há sons distintos, localizáveis fontes que vertem para o ar o seu sinal. Onde havia o sussurro há o silêncio. (…)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Despertar

balbucio essa voz que arde a vida
e encho o cuspo. Canto

o fruto da idade
canto a minha geração
e a estranha morte do ego.

uma canção proclamativa
como um panfleto;
das consoantes que soçobram canto
um poema à morte
é parte de um sonho
porque tem-me o senhor
a hora da recolha

dissesse o mote dos meus olhos
de espasmos fortalece o grito;
os que choram têm os calendários
pesados de memórias

e neste canto um país se memoriza

João Tala