quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Intermezzo

do cais, partiram os navios
onde eu quis ir sempre,
e nunca fui...

no jardim, morreram as flores
que o meu olhar só beijou
através das grades brancas...

e pelos caminhos,
passaram por mim,
sem olharem para trás uma só vez,
todos os que tinham pressa de chegar...

só eu fui devagar...
cada vez mais devagar
quanto mais perto estava.

a desejar, as flores que morriam
por detrás das grades brancas...
os navios que partiam
envolvidos na bruma,
e os caminhos, nunca percorridos...

só eu fui devagar...

Alda Lara

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Permanência

continua o corpo. o corpo continua sentado.
nos fumos das ervas. rectifico.
nos fumos do mar, nas nuvens do olhar

esperando na madrugada do tempo
pelas promessas prometidas. rectifico.
pelas cores dos céus novos: o dia, a noite

onde veias de lágrimas, túneis de dores
não palparei, não verei.
veias de lágrimas apenas para escutar
nas memórias do Outono.

João Maimona

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Na cidadezinha

roxas e cálidas,
roxas e cálidas tombam as tardes
de todos os dias.

na cidadezinha
bocejam de tédio o chafariz do largo,
as ruas do lá vem um
e o jardim feito para ser belo
mas que é apenas triste!

não se passa nada...

por detrás das gelosias
à luz da vida cerradas,
as mulheres vão tecendo enredos
todos os dias, todos os dias...
e nos cafés,
onde as horas nascem já cansadas,
os homens vão tecendo
todos os dias, todos os dias...

tombam as tardes roxas e cálidas
e nada mais na cidadezinha...

Lília da Fonseca

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Duas lições

I
todos os materiais servem ao poeta:
o som de um tambor,
a angústia de uma mulher nua,
a lembrança de uma utopia.

a vida deposita, diariamente,
no altar profano da poesia,
a sua dádiva generosa:
estrelas e detritos.

e tudo a poesia sacrifica.

II
para amar um poema,
é preciso ter coração e
sangue nas veias.

e que o poema seja uma carícia
ou um soco na boca do estômago

João Melo

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O rio

da minha mutopa
saiu um génio do mal
nem grande nem pequeno
um génio
com um machado de dois gumes
e uma moca de pau sangue.

disse-me:
- venho guardar a nascente do teu rio.
levo muito tempo a apagar
os rastos de sangue
que deixa na minha pele.

de noite mistura-me os sonhos
deixa que se veja
à transparência
a luz que o queima por dentro
e me ilumina.

sou eu que teço
a rede onde se deita.

Paula Tavares

domingo, 19 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ciências naturais

como as marés, o sangue, passivo, flui:
apelo e repulsa de astro ignoto,
metade na escuridão amortalhado...

a carne, pelas quatro estações pautada,
mundo vegetal na flor e fenecer,
poderá vingar noutro fruto bichado.

e os ossos - que sirvam para o sábio,
perplexo, no futuro, desenterrar...
e o menino, na escola, decorar!

Tomaz Kim

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Rodando rodando

rodando rodando
a trança de meninos e estrelas
em terra de sol
vozes e vento
são búzios de murmúrio
na concha de nossas mãos

em terra de sol
se espuma ao de leve a calema da dor
na praia do tempo
rodando rodando
a trança de meninos e estrelas

Arlindo Barbeitos

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pastorela

sou pastora: guardo poemas
rebanho que a ti me leva
por carreiros doutra vez
que fecundo em cada treva.

sou pastora: guardo Abril
pelas montanhas de lã
e a fartura para abrir
quando o leite diz amanhã.

sou pastora: guardo amor
guardo angola, aqui por onde
o meu rebanho é de sol
que fecundo em cada fronde.

Manuela de Abreu

domingo, 12 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Noite luarenta

noite luarenta
sufocando silêncios na distância.

noite luarenta
entornando brilhos de prata
sobre os carreiros do mato.

noite luarenta
compondo nas lonjuras de áfrica
rufar dorido de tambores
e pranto de kissanjes.

noite luarenta
derrubando os mitos da civilização.

Jofre Rocha

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Estória que o vento trouxe

ouves?
não ouves
o que o vento, lá fora,
está a contar
às buganvílias?
há mais de uma hora
que o estou a escutar.

ouviste
o que disse agora?
e que triste
que ele está...

diz ele
que o manuel
há quase dois dias
que anda no mar;
e a ximinha,
coitada,
desolada, 
sentada
na praia
a chorar
e a rezar
e a esperar...

quando ele largou
no "bom dia"
o mar era um lago
e parecia
de azeite...
mas, depois
cresceu,
enraiveceu
numa calema tremenda
e toda a praia da tenda
tremeu.

partiram-se as armações,
viraram-se as embarcações
e toda a gente se escondeu,
assustada

só a ximinha, 
coitada,
ficou sentada
na praia
a chorar
e a rezar
e a esperar...

hoje de manhã
já a calema amainara
e não se vira ainda
o "bom dia"
a entrar
pra fundear
na baía...

Aires de Almeida Santos


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

De adélias e prados

estou tão perto
que uma paz
me calca os sentidos.
eu-pedra
eu-mundo
eu-labirinto nas calmarias da tua
voz escrita.
as tuas palavras induzem à descoberta
do profundo;
escondo preces na tinta dos teus dedos,
nos teus olhos felinos
nas tuas palavras rudes - de madeira.

fico perto

tão perto de saber o que tu
e raduan
têm nos bolsos do vivenciado.
lembro que um dia
à tarde
vou acordar
e ainda preso ao sono
vou te escrever uma carta.
uma carta onde
direi (dar-te-ei)
o resto
que não tenho agora.

escondendo preces
entre bagagens

uma paz que é tua
acalma-me
os sentidos.

Ondjaki

domingo, 5 de fevereiro de 2012


Cascata da Huíla

A cascata no meio de vegetação intensa, e com uma altura considerável, é um dos maiores atractivos da província da Huíla.
A água que cai forma uma piscina natural entre as pedras.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Civilização ocidental

latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

os farrapos completam
a paisagem íntima

o sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

depois as doze horas de trabalho
escravo

britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

a velhice vem cedo

uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

Agostinho Neto

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A terra que te ofereço

I
quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
e materna nudez do horizonte.

quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão da minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao sul.

II
trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
deste outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
e dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e reflectida
na rápida torrente
que se mede em cor.

III
num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável mar de plasma
quente.

Ruy Duarte de Carvalho