domingo, 1 de janeiro de 2012

MANUEL DOS SANTOS LIMA


(…)
Gonçalves tinha a camisola interior em pedaços, estava cheio de escoriações e ferimentos, com as calças esfarrapadas e desarmado. Ignorava como viera parar àquelas moitas, sem a bota e sem metade do pé esquerdo, e com a perna direita escalavrada. Os dois pelotões com que saíra, como que foram tragados pela mata. Tudo se passara com rapidez estonteante. Só conseguira ouvir as primeiras explosões, porque depois, as pancadas do coração vibravam-lhe tão fortemente nos tímpanos que não o deixavam perceber mais nada. Lembrava-se vagamente dos primeiros segundos de atropelos e trambolhões, as pernas varadas por brasas e em seguida aquela coceira infernal por todo o corpo.
Sentia uma enorme lassitude. Devia estar inchado porque não se reconhecia dentro do seu corpo que lhe parecia demasiado grande enquanto que “ele” se sentia mirrado. Os ferimentos causavam-lhe demasiadas dores e tinha frio, um frio de bater o queixo. Estava em situação pouco invejável mas não se devia enervar, repetia-se constantemente. A única maneira de se salvar seria aguentar-se até que viessem os socorros. Caíra numa emboscada perfeita. Que milagre que ainda estivesse vivo. Mas ficaria aleijado para o resto dos seus dias. Chorou amaldiçoando a hora em que entrara para a Escola do Exército. Teria preferido seguir Medicina, mas o pai, obscuro funcionário da Câmara Municipal, não dispunha de recursos para cobrir as despesas de um curso tão longo quanto dispendioso. Nesse tempo não havia guerra e a carreira das armas dava satisfação às ambições dos jovens pobres com mais de um metro e cinquenta de altura. Sem a farda, estaria condenado à mediocridade. Ela abrira-lhe todas as portas, concedera-lhe honras e autoridade. Quando andava no Liceu, arranjara um atestado de pobreza para não ter que comprar a farda de Vanguardista da Mocidade Portuguesa, e ser um detestável “piolho verde”. Pretendia-se um individuo evoluído e de ideias avançadas. Daí o seu desprezo ostensivo pelos padres e políticos e toda a sua admiração pelas prostitutas. Apaixonara-se mesmo por uma, da rua dos Condes, com quem queria casar, num desafio total às convenções burguesas. Considerava-se oposicionista e militava nas paredes dos urinóis públicos. Aí descarregava a sua bílis contra o salazarismo. Certa vez, porém, atrevera-se a participar numa manifestação estudantil, no Campo dos mártires da Pátria. A Guarda Nacional Republicana carregara à espadeirada e ele chegara a casa com a cara a sangrar e as costas doridas. (…)

1 comentário:

Bárbara Igor-ovalle disse...

Caro amigo, escrevo desde Chile. Vi teu blog e gostaria muito de colocar alguns post no meu blog mas em espanhol, assim os textos poderam abranjer (se diz assim?) mais leitores... o que me diz? eu colocarei um link a teu blog.

por enquanto, te convido a nos visitar:

http://misosoafrica.wordpress.com/

abraços!!! tomara possa nos ajudar a divulgar nosso trabalho, também faremos igualmente com o seu trabalho.

Bárbara Igor