segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S. Filipe de Benguela

recreei-te em saudade e cor
quando me afastei de ti
e os limites que te fiz
são dentro do meu sentir.

por cima a cor neutra e desdobrada
dum céu de cinzas de passado.

o sombreiro como marco
marco um lado.

as curvas nuas e douradas
de montes femininos
nus até à cintura verde
verde dos longos canaviais
anunciam o limite de benguela.

na areia a longa e estreita ferida
do cavaco
escorrendo o sangue de água
que abre em bananais sombrios
caminhos às fábulas de antanho
marca outra fronteira da cidade.

para outro lado estende-se o sertão
palmeiras espetadas pelo mato
como flechas da aljava
do soba caparandanda
sombreiam a curva dos caminhos
perdidos na imensidão...

por outro limite tem benguela
saudade no meu coração
e pela frente aberto e vasto
tem este mar ardente de oiro e poentes
este mar imenso que sorri ao longe.

este mar imenso que também chora
e conta histórias de espumas e naufrágios,

mas que também banha os seios jovens
das moças que embalam sonhos
nas sombras azuis dos quintalões

altas paredes de adobe
cheias de sonhos e histórias

que viram as longas caravanas da borracha
e passos perdidos pelos caminhos sem glórias

molhadas de lágrimas,
salobras lágrimas
de anseios há muito mortos...
mais amargos do que o mar
o mar salgado que chora
cantos de não mais voltar...

lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

sons dos sinos da senhora do pópulo
(que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

sob as árvores antigas
que o vento sul esporeia
como uma zebra azul
feita de nuvens e céu.

coração quente e generoso de benguela
bairros do benfica, cassôco,
águas da cacimba da rua nove
repouso claro e lento
de luas nascidas longe
na noite semeada de astros
como olhos de cazumbis...

na noite enorme e feiticeira da cidade

bruxuleante do bruxedo de fogueiras
feitas de amores velhos, carcomidos,
adormecidos, nas velhas casas compridas.

e de fogueiras de verdade que acalentam
ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
subtis como a própria alma da brisa
que arranca da terra o sangue vivo
duma pena antiga que se perde...

noite semeada de batuques
batuques que me parecem

o palpitar dum coração imenso
que se esvai nas noites desdobradas
num rosário de auroras sucessivas.

minha benguela nocturna e antiga
das amplas ruas cheirando a mar
colmeia de lembranças que me ferem
perante a dura realidade do progresso...

volta:
volta para os sete limites deste sonho
sob a grande tristeza vegetal das frondes
cheias de mistérios ancestrais
do meu passado que não volta mais...

Neves e Sousa


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