domingo, 29 de janeiro de 2012

ARNALDO SANTOS


(…)
Ainda era noite fechada, quando o capitão Biker lhe acordou com voz firme: - Levante-se… chegou o momento, pois, quando abrir o sol já os pássaros debandaram…
Emídio Mendonça ergueu-se bruscamente, sem mesmo se interrogar porque obedecia assim tão presto aos modos conspirativos do administrador da “Perototypo”, afinal ele não lhe tinha prevenido de nada, nem sequer imaginava o que pretendia intentar. De certo modo a culpa tinha sido dele, bastara-lhe o tom equívoco da véspera e evitara mesmo fazer-lhe perguntas. Sentia, vagamente, que por razões que adivinhava temerosas, esse era o estilo que melhor lhe convinha; favorecia um entendimento sem que tivesse que se comprometer. De resto tinha sido ele quem fora em busca de ajuda, e não podia fazer exigências.
Assim, Emídio calçou-se na pressa, ignorando que naquele momento também começava uma viagem nocturna dentro de si mesmo, e que dela jamais regressaria. – “A princípio não sabia bem o que se passava… tudo se fazia em segredo, mas nada parecia esconder-se.” – diria depois, quando relatou o episódio.
Havia algo de insólito em tudo aquilo, a começar pela sua presença entre uma multidão de vultos silenciosos que se cruzavam em todas as direcções, e também ele depois se moveria lentamente entre eles, aparentemente sem destino. Vogava numa estranha ambiência, num estado em que não se apercebia claramente se distinguia as coisas pelos seus sentidos despertos, ou se através de uma qualquer outra faculdade intermediária.
Envolvia-lhe ainda uma estranha sonolência, e embora reconhecesse que não era aquele o meio onde se formavam os seus sonhos, mesmo assim sentia que ia começar a viver aquela viagem como um sonho. Já lhe antevia daquele modo, e o pressentimento confirmou-se.
No entanto, em dado momento alguém tocara-lhe no ombro, era um dos quimbáris da fazenda, reconheceu-lhe pela sua alta estatura de bailundo. Passou-lhe para as mãos um pesado mucungulo, como se ele não estivesse ali senão para lhe empunhar, e Emídio estremeceu. Era uma espingarda Schnyder, conhecia, seu pai tivera uma igual, e era também assim pela madrugada que ele lhe via partir para caçar sêxis e gulungos, perto da fazenda. (…)

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