sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aqui não há esperança

aqui não há esperança
aqui é tudo espesso igual e morno
até onde a vista alcança
ó sombras do caminho
nada se define em torno
aqui tudo são brumas
movediço e ilusório
o que se vê são sombras não as árvores
são imagens não as coisas
e as estrelas após tantos mistérios
ainda são almas em sonhos merencórios
tudo aqui é uniforme. onde se apalpa
sente-se o decompor dos corpos mortos
e a cada passo - uma barreira
e a cada luz - um véu de trevas
e em cada bússola os ponteiros tortos
na luta somos desiguais
no amor somos mentiras
na vida somos estéreis
se temos coração
é para o rasgarmos dia a dia em tiras
(ó lobos dos caminhos
fauces de angústia em ânsias de apetite
comei-nos a boca e os braços
imolai-nos de vez à vossa fome
e uivai depois felizes aos espaços)
aqui tudo é dúbio e vacilante
num chão de trincheiras os espectros
andam fugindo de ódios que os corroem
claras bandeiras de matizes claros
refugiam-se nas sombras por que doem
tudo aqui se amortalha nos mistérios
borbotões de vida que cessaram
dão passo à serenidade
caiada e estéril dos cemitérios
tudo o que se come tem sabor a mastigado
tudo o que se ouve é como já ouvido
o presente é um fruto descascado
e o futuro é um canto repetido
andam os répteis a banhar-se em luz
andam morcegos a comer os fogos
aninham-se sapos em doçuras moles
e andam as almas a acalentar malogros
(lobos dos pinhais de fauces tenebrosas
vinde roer-nos o olhar e a mão
vinde matar-nos e uivar contentes
à serenidade do tempo na amplidão)
tudo aqui é derrota sem batalhas
tudo aqui é um rugir de reses
tudo aqui são pálidas mortalhas
a fingir de cotas e a fingir de arneses
andam flores a desabrochar para quê?
para que andam aves a voar no vale?
para que andam trigos a doirar ao sol?
para que brilha na parede a cal?
sonhos de sonhos a subir alados
tremulas mãos a tactear os pomos
e enforcados
secam na árvore os apetecidos gomos
deitam-se as redes mas o mar é sóbrio
olha-se a lua mas a lua é morta
cravam-se os cravos mas o casco é inútil
bate-se a aldrava mas não se abre a porta
tudo aqui é tranquilo como os mortos
tudo aqui é sonâmbulo e vencido
tudo aqui é cavo como um sorvo
imóvel como um olhar estarrecido
(ó lobos dos caminhos
que a fauce negra entreabris lasciva
vinde seguros acabar connosco
e uivar alegres à eternidade altiva)
e não nos dêem uma alma
para que sobreviva.

Antero Abreu

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