segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Poema assimétrico – xico Bastião

dormindo sob um sol dado à morte
xico bastão sonha… ele é um soldado
e lhe disseram: soldado não sonha, mata!
mas xico bastião sonha…
entre zenza do itombe e ndalatando
há um kimbo à sua espera
e os braços doces de uma mulher
sua lavra massango, milho, mandioca
e no kimbo o riso monandengue do futuro
do fruto que ficou crescendo no ventre
vida da mulher dos braços doces…

xico bastião acorda no sobressalto
de obuses e morteiros e voz que lhe diz:
mata mata mata ou ficas estendido na mata,
a desconseguir a vida, o kimbo, a lavra e…
xico bastião mata para regressar no kimbo
a guerra é peçonha de kinhoka
e o sonho roto se diluindo na voz sem alma
das armas cuspindo fogo: kuta-mate-túbia
kuta-mate-túbia, tututúbia
e os fiapos do seu sonho passam desfeitos
são, agora, um fogo-fátuo (soldado não sonha…):
lavra – larva (e) morte
lavrador – lavra (a) dor
e um desejo de chuva e lágrima no seu rosto
entre zenza do itombe e ndalatando
ou em outro qualquer lugar
há sempre um kimbo à espera
de um lavrador transformado em soldado
e muitas vezes também
os braços doces de uma mulher…

Namibiano Ferreira

domingo, 29 de janeiro de 2012

ARNALDO SANTOS


(…)
Ainda era noite fechada, quando o capitão Biker lhe acordou com voz firme: - Levante-se… chegou o momento, pois, quando abrir o sol já os pássaros debandaram…
Emídio Mendonça ergueu-se bruscamente, sem mesmo se interrogar porque obedecia assim tão presto aos modos conspirativos do administrador da “Perototypo”, afinal ele não lhe tinha prevenido de nada, nem sequer imaginava o que pretendia intentar. De certo modo a culpa tinha sido dele, bastara-lhe o tom equívoco da véspera e evitara mesmo fazer-lhe perguntas. Sentia, vagamente, que por razões que adivinhava temerosas, esse era o estilo que melhor lhe convinha; favorecia um entendimento sem que tivesse que se comprometer. De resto tinha sido ele quem fora em busca de ajuda, e não podia fazer exigências.
Assim, Emídio calçou-se na pressa, ignorando que naquele momento também começava uma viagem nocturna dentro de si mesmo, e que dela jamais regressaria. – “A princípio não sabia bem o que se passava… tudo se fazia em segredo, mas nada parecia esconder-se.” – diria depois, quando relatou o episódio.
Havia algo de insólito em tudo aquilo, a começar pela sua presença entre uma multidão de vultos silenciosos que se cruzavam em todas as direcções, e também ele depois se moveria lentamente entre eles, aparentemente sem destino. Vogava numa estranha ambiência, num estado em que não se apercebia claramente se distinguia as coisas pelos seus sentidos despertos, ou se através de uma qualquer outra faculdade intermediária.
Envolvia-lhe ainda uma estranha sonolência, e embora reconhecesse que não era aquele o meio onde se formavam os seus sonhos, mesmo assim sentia que ia começar a viver aquela viagem como um sonho. Já lhe antevia daquele modo, e o pressentimento confirmou-se.
No entanto, em dado momento alguém tocara-lhe no ombro, era um dos quimbáris da fazenda, reconheceu-lhe pela sua alta estatura de bailundo. Passou-lhe para as mãos um pesado mucungulo, como se ele não estivesse ali senão para lhe empunhar, e Emídio estremeceu. Era uma espingarda Schnyder, conhecia, seu pai tivera uma igual, e era também assim pela madrugada que ele lhe via partir para caçar sêxis e gulungos, perto da fazenda. (…)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O grande desafio

naquele tempo
a gente punha despreocupadamente os livros no chão
ali mesmo naquele largo - areal batido de caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde hoje passa a avenida luminosamente grande
e com uma bola de meia
bem forrada de rede
bem dura de borracha roubada às borracheiras do neves
em alegre folguedo, entremeando caçambulas
... a gente fazia um desafio ...

o antoninho
filho desse senhor moreira da taberna
era o capitão
e nos chamava de ó pá,
agora virou doutor
(cajinjeiro como nos tempos antigos)
passa, passa que nem cumprimenta
- doutor não conhece preto da escola.

o zeca era guarda-redes
(pópilas, era cada mergulho!
aí rapage - gritava e delírio a garotada)
hoje joga num clube da baixa
já foi a moçambique e no congo
dizem que ele vai ir em lisboa
já não vem no musseque
esqueceu mesmo a tia chiminha que lhe criou de pequenino
nunca mais voltou nos bailes de don'ana, nunca mais
vai no sportingue, no restauração
outras vezes no choupal
que tem quitatas brancas

mas eu lembro o zeca pequenino
o nosso saudoso guarda-redes!
tinha também
tinha também o velhinho, o mascote, o kamauindo...
- coitado do kamauindo...
anda lá na casa da reclusão
(desesperado deu com duas chapadas na cara do senhor chefe
naquele dia em que lhe prendeu e disparatou a mãe)

- o velhinho vive com a ingrata
drama de todos os dias
a ingrata vai nos brancos receber dinheiro
e traz pró velhinho beber;
e o mascote? que é feito do mascote?
- ouvi dizer que foi lá em s. tomé como contratado

é verdade, e o zé?
que é feito, que é feito?
aquele rapaz tinha cada finta!
hum... deixa só!
quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava
vertiginosamente até na baliza.

e o venâncio? o meio-homem pequenino
que roubava mangas e os lápis nas carteiras
fraquito da fome constante
quando apanhava um pinhão chorava logo!
agora parece que anda lixado
lixado com doença no peito.

nunca mais! nunca mais!
tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!
era bom aquele tempo
era boa a vida a fugir da escola a trepar aos cajueiros
a roubar os doceiros e as quitandeiras
às caçambulas:
apresa! ninguém! ninguém!
tinha sabor emocionante de aventura
as fugas aos polícias
às velhas dos quintais que pulávamos

vamos fazer escolha, vamos fazer escolha
... e a gente fazia um desafio...

oh, como eu gostava!
eu gostava qualquer dia
de voltar a fazer medição como o zeca
o guarda-redes da baixa que não conhece mais a gente
escolhia o velhinho, o mascote, o kamauindo, o zé
o venâncio, e o antoninho até
e íamos fazer um desafio como antigamente!
ah, como eu gostava...

mas talvez um dia
quando as buganvílias alegremente florirem
quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais
quando a sombra das mulembeiras for mais boa
quando todos os que isoladamente padecemos
nos encontrarmos iguais como antigamente
talvez a gente ponha
as dores, as humilhações, os medos
desesperadamente no chão
no largo - areal batido de caminhos passados
os mesmos trilhos de escravidões
onde passa a avenida que ao sol ardente alcatroámos
e unidos nas ânsias, nas aventuras, nas esperanças
vamos então fazer um grande desafio ...

António Jacinto

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quinda solta

linda
pisando bombó o fogo das massuika salva
pelejando
na boca o vento

tem filhos    tem home
na menina dos olhos
tem

e pelas ruas da cidade
quinda solta
rasga
a voz

Jorge Macedo

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Evimbi

a sombra do pássaro
passou sobre a minha cabeça
de menino,
quando os meus pés descalços
faziam carreirinhos na sumaúma
espalhada nas margens macias
do rio tchimpumpunhime.

a sombra do pássaro
pairou negra sobre nós,
amigo mbula.
ao teu grito de medo
prendeu-se o meu assustado grito:
- vimbi. vimbi!!

a sombra do pássaro
passou sobre nós,
amigo mbula!...

Jorge Arrimar

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mausoléu Agostinho Neto, poeta e primeiro Presidente da República 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre a colina de Calomboloca

eram contratados, eram homens mortos
duas horas antes da morte os matar,
sobre a colina de calomboloca

subiam a ladeira devagar,
passo atrás de passo,
sem sonhos nem vontades.
com eles apenas a obstinação do silêncio.
e nós a contemplar
e nós a ver passar
os sete mortos, sem expressão na face,
naquela tarde rubra, tarde fria,
sobre a colina de calomboloca

não sei como contar-te irmão, aquela tarde
e a nossa paixão de contemplar
os jovens que trepavam a ladeira.
não sei o que dizer-te irmão, daquelas faces
olhando para o tempo sem pensar
sem descanso, nem dor, nem conteúdo,
obstinando em silenciar...

e nós a ver
fazendo tudo para não olhar.
e nós a reparar que eram homens mortos
duas horas antes da morte os matar
sobre a colina de calomboloca.

uniram-se em forma de sete irmãos
e deram as mãos,
e gastaram a vida até ao fim
a silenciar...
e de mãos dadas caíram na terra
sobre a colina de calomboloca.

nasceram flores de pétalas vermelhas
entre as raízes da grande mafumeira.
agora pesa um silêncio grosso
como o silêncio de coágulos de sangue
sobre a colina de calomboloca...

apenas o lesto animal das moitas
trauteia uma canção inesquecível
e a brisa roladora de mistérios
murmura um queixume mais profundo
sobre a colina de calomboloca...

Henrique Abranches

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Miradoiro

ver a rua passar
em jeitos de avenida
é um anacronismo

gosto de deambular
saltitante das ruas
arrastadas nos pés dos passantes

agitar de mãos e pés
da multidão anónima
acotovelando-se abstracta

não há raiva no movimento
em cada estranho uma indiferença
um amigo em cada esquina

Ruy Burity da Silva

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Encontro

tarde de olhos roxos
com punhais de chuva
a rasgar a névoa
da minha comoção.

(virias de perto?
virias de longe?
de lábios cerrados
ou de mão estendida
para a minha mão?)

larguei pombas brancas
do meu coração
com recados dum antigo amor...

pombas brancas que não regressaram
na tarde roxa que entornava a dor...

Amélia Veiga

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sombras

tristezas os olhos
que não têm o brilho de contar,
estão riscados de sombras
como se o rasto dos caminhos
o longe da viagem
fosse, neles, deixando pistas.

tristezas os olhos
de onde me olhas
detrás de um tempo passado,
o tempo das promessas antigas.

teus olhos, amado,
são os olhos de alguém
que já morreu
e ainda não sabe.

Paula Tavares

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O vazio

acordaste como os primeiros passos do comboio.
pelo vidro do muro viste o medo da madrugada.
mijaste no limiar do primeiro passo.
e quiseste dar passos rápidos

(os homens quando acordam passam em revista
os sonhos da noite.)

quiseste ser o dia em vez de estar no dia.
e não viste a fala dos sonhos.
nem sequer a memória da noite.
num minuto só viste o vazio dos sonhos.
nas gavetas da tua cabeça só existe
o vazio do tambor vazio. agora.

este teu sonho é a tela de dores
que se infiltram nas tuas pernas.
- não deixa crescer os teus lamentos –
no limiar d primeiro passo
faltou passar a mão esquerda
pela paisagem do cabelo.

assim vias o corpo dos teus sonhos.
- não deixa crescer os teus lamentos –
pela próxima noite talvez.as noites
passam como a urina da bexiga.

João Maimona

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S. Filipe de Benguela

recreei-te em saudade e cor
quando me afastei de ti
e os limites que te fiz
são dentro do meu sentir.

por cima a cor neutra e desdobrada
dum céu de cinzas de passado.

o sombreiro como marco
marco um lado.

as curvas nuas e douradas
de montes femininos
nus até à cintura verde
verde dos longos canaviais
anunciam o limite de benguela.

na areia a longa e estreita ferida
do cavaco
escorrendo o sangue de água
que abre em bananais sombrios
caminhos às fábulas de antanho
marca outra fronteira da cidade.

para outro lado estende-se o sertão
palmeiras espetadas pelo mato
como flechas da aljava
do soba caparandanda
sombreiam a curva dos caminhos
perdidos na imensidão...

por outro limite tem benguela
saudade no meu coração
e pela frente aberto e vasto
tem este mar ardente de oiro e poentes
este mar imenso que sorri ao longe.

este mar imenso que também chora
e conta histórias de espumas e naufrágios,

mas que também banha os seios jovens
das moças que embalam sonhos
nas sombras azuis dos quintalões

altas paredes de adobe
cheias de sonhos e histórias

que viram as longas caravanas da borracha
e passos perdidos pelos caminhos sem glórias

molhadas de lágrimas,
salobras lágrimas
de anseios há muito mortos...
mais amargos do que o mar
o mar salgado que chora
cantos de não mais voltar...

lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

sons dos sinos da senhora do pópulo
(que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

sob as árvores antigas
que o vento sul esporeia
como uma zebra azul
feita de nuvens e céu.

coração quente e generoso de benguela
bairros do benfica, cassôco,
águas da cacimba da rua nove
repouso claro e lento
de luas nascidas longe
na noite semeada de astros
como olhos de cazumbis...

na noite enorme e feiticeira da cidade

bruxuleante do bruxedo de fogueiras
feitas de amores velhos, carcomidos,
adormecidos, nas velhas casas compridas.

e de fogueiras de verdade que acalentam
ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
subtis como a própria alma da brisa
que arranca da terra o sangue vivo
duma pena antiga que se perde...

noite semeada de batuques
batuques que me parecem

o palpitar dum coração imenso
que se esvai nas noites desdobradas
num rosário de auroras sucessivas.

minha benguela nocturna e antiga
das amplas ruas cheirando a mar
colmeia de lembranças que me ferem
perante a dura realidade do progresso...

volta:
volta para os sete limites deste sonho
sob a grande tristeza vegetal das frondes
cheias de mistérios ancestrais
do meu passado que não volta mais...

Neves e Sousa


domingo, 8 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aqui não há esperança

aqui não há esperança
aqui é tudo espesso igual e morno
até onde a vista alcança
ó sombras do caminho
nada se define em torno
aqui tudo são brumas
movediço e ilusório
o que se vê são sombras não as árvores
são imagens não as coisas
e as estrelas após tantos mistérios
ainda são almas em sonhos merencórios
tudo aqui é uniforme. onde se apalpa
sente-se o decompor dos corpos mortos
e a cada passo - uma barreira
e a cada luz - um véu de trevas
e em cada bússola os ponteiros tortos
na luta somos desiguais
no amor somos mentiras
na vida somos estéreis
se temos coração
é para o rasgarmos dia a dia em tiras
(ó lobos dos caminhos
fauces de angústia em ânsias de apetite
comei-nos a boca e os braços
imolai-nos de vez à vossa fome
e uivai depois felizes aos espaços)
aqui tudo é dúbio e vacilante
num chão de trincheiras os espectros
andam fugindo de ódios que os corroem
claras bandeiras de matizes claros
refugiam-se nas sombras por que doem
tudo aqui se amortalha nos mistérios
borbotões de vida que cessaram
dão passo à serenidade
caiada e estéril dos cemitérios
tudo o que se come tem sabor a mastigado
tudo o que se ouve é como já ouvido
o presente é um fruto descascado
e o futuro é um canto repetido
andam os répteis a banhar-se em luz
andam morcegos a comer os fogos
aninham-se sapos em doçuras moles
e andam as almas a acalentar malogros
(lobos dos pinhais de fauces tenebrosas
vinde roer-nos o olhar e a mão
vinde matar-nos e uivar contentes
à serenidade do tempo na amplidão)
tudo aqui é derrota sem batalhas
tudo aqui é um rugir de reses
tudo aqui são pálidas mortalhas
a fingir de cotas e a fingir de arneses
andam flores a desabrochar para quê?
para que andam aves a voar no vale?
para que andam trigos a doirar ao sol?
para que brilha na parede a cal?
sonhos de sonhos a subir alados
tremulas mãos a tactear os pomos
e enforcados
secam na árvore os apetecidos gomos
deitam-se as redes mas o mar é sóbrio
olha-se a lua mas a lua é morta
cravam-se os cravos mas o casco é inútil
bate-se a aldrava mas não se abre a porta
tudo aqui é tranquilo como os mortos
tudo aqui é sonâmbulo e vencido
tudo aqui é cavo como um sorvo
imóvel como um olhar estarrecido
(ó lobos dos caminhos
que a fauce negra entreabris lasciva
vinde seguros acabar connosco
e uivar alegres à eternidade altiva)
e não nos dêem uma alma
para que sobreviva.

Antero Abreu

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Gajaja

fruto pálido, empaludado…
cereja dos trópicos
de cor desmaiada.
luanda:
- onde estão as tuas gajajeiras
que a troco dos seus frutos
pedradas eu lançava,
pedradas que magoavam
- pedradas de criança!
por certo que foram destroçadas,
sepultadas
em teus alicerces
da brito godins
e de todas as ingombotas,
tal como os frondosos cajueiros.
vi hoje uma gajajeira já quase morta.
Havia pedras a seu lado,
areia e cimento
e um buraco longo, rodopiando,
fazendo quadrados,
rectângulos, quadrados…
se a minha fortuna não fosse feita de sonhos,
compraria aquele terreno.
a copa da gajajeira
seria o meu chapéu,
a umbela dos dias quentes
e das noites de luar e de cacimbo.
luanda:
- onde é que estão as nossas gajajeiras?
essas gajajeiras que me davam
as gajajas da minha infância
os frutos da minha vadiagem!
eu atirei pedradas!
mas tu, luanda,
o que fizeste delas?

Tomaz Jorge

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tem homens nesta terra

tem homens nesta terra
que vivem no futuro.

o futuro tem corpo
na força dos seus braços
nos seus dedos que se prolongam nas kalashes
nos seus sonhos de paz que disparam as kalashes
e na luz que nos seus olhos se antecipam as madrugadas.

tem homens nesta terra
que não sentirão a morte.

as suas vidas nasceram
sobre as mortes que venceram
nas matas e cidades
que desenterraram das valas de comuns
que colheram das lavras em descanso.

tem homens nesta terra
que bebem o futuro no presente
e criam do varrer das conzas
a VIDA.

Arnaldo Santos

domingo, 1 de janeiro de 2012

MANUEL DOS SANTOS LIMA


(…)
Gonçalves tinha a camisola interior em pedaços, estava cheio de escoriações e ferimentos, com as calças esfarrapadas e desarmado. Ignorava como viera parar àquelas moitas, sem a bota e sem metade do pé esquerdo, e com a perna direita escalavrada. Os dois pelotões com que saíra, como que foram tragados pela mata. Tudo se passara com rapidez estonteante. Só conseguira ouvir as primeiras explosões, porque depois, as pancadas do coração vibravam-lhe tão fortemente nos tímpanos que não o deixavam perceber mais nada. Lembrava-se vagamente dos primeiros segundos de atropelos e trambolhões, as pernas varadas por brasas e em seguida aquela coceira infernal por todo o corpo.
Sentia uma enorme lassitude. Devia estar inchado porque não se reconhecia dentro do seu corpo que lhe parecia demasiado grande enquanto que “ele” se sentia mirrado. Os ferimentos causavam-lhe demasiadas dores e tinha frio, um frio de bater o queixo. Estava em situação pouco invejável mas não se devia enervar, repetia-se constantemente. A única maneira de se salvar seria aguentar-se até que viessem os socorros. Caíra numa emboscada perfeita. Que milagre que ainda estivesse vivo. Mas ficaria aleijado para o resto dos seus dias. Chorou amaldiçoando a hora em que entrara para a Escola do Exército. Teria preferido seguir Medicina, mas o pai, obscuro funcionário da Câmara Municipal, não dispunha de recursos para cobrir as despesas de um curso tão longo quanto dispendioso. Nesse tempo não havia guerra e a carreira das armas dava satisfação às ambições dos jovens pobres com mais de um metro e cinquenta de altura. Sem a farda, estaria condenado à mediocridade. Ela abrira-lhe todas as portas, concedera-lhe honras e autoridade. Quando andava no Liceu, arranjara um atestado de pobreza para não ter que comprar a farda de Vanguardista da Mocidade Portuguesa, e ser um detestável “piolho verde”. Pretendia-se um individuo evoluído e de ideias avançadas. Daí o seu desprezo ostensivo pelos padres e políticos e toda a sua admiração pelas prostitutas. Apaixonara-se mesmo por uma, da rua dos Condes, com quem queria casar, num desafio total às convenções burguesas. Considerava-se oposicionista e militava nas paredes dos urinóis públicos. Aí descarregava a sua bílis contra o salazarismo. Certa vez, porém, atrevera-se a participar numa manifestação estudantil, no Campo dos mártires da Pátria. A Guarda Nacional Republicana carregara à espadeirada e ele chegara a casa com a cara a sangrar e as costas doridas. (…)