domingo, 11 de dezembro de 2011

UANHENGA XITU


(…)
À noite, em frente da casa do Kahitu era o lugar de disunji. Os jovens, depois do jantar, apareciam para algumas brincadeiras de dança e de jogos.
Enquanto cá fora a gritaria das crianças e de adultos cortava a noite, o mestre, no seu quarto, estava em volta de donzelas – bonitas, feias e as de beleza média – iluminadas por um tosco candeeiro de lata.
As gargalhadas das moças estalavam, consoante o assunto, se era ou não palpitante. Mas, fora, grosso maior de gente, o barulho dos brincadores abafava as risadas indiscretas das ”alunas”.
Nessa espécie de “escola de civismo”, cada frequentadora fazia a sua pergunta às colegas ou ao mestre. Geralmente era o mestre que dava a explicação de como uma rapariga se deve portar junto de um namorado; as respostas que se devem dar ou não ao galanteador; a forma como se deve portar a moça no primeiro dia do casamento; como evitar o kubatekela*, o que se deve dizer ao namorado, quando a moça pretendida já não é honrada, e se se deve dizer ou não isso ao rapaz, antes do matrimónio; a significação dos três ou mais dias, a seguir ao casamento, em que a noiva é obrigada a dormir com a sogra ou mulher que a substitua; os deveres a atender no dia das núpcias, junto dos futuros sogros, do povo e, principalmente, das damas que a acompanham; como se elimina a vergonha de que se apossam as noivas, nas primeiras refeições, logo a seguir ao enlace.
São estas e mais estas coisas que Kahitu ministrava às moças, sem conhecimento de muitos pais. Estes alcunhavam o dormitório do mestre como quarto de kinzangala** ou de makudi***.
Eram noites mais felizes na vida do aleijado. Aquelas em que se encontrava com as raparigas no seu quarto. O petróleo era comprado pelas discípulas. Estas levavam para lá conversas muito íntimas, que ouviam das cunhadas, das tias, das mulheres de kisoko e daquelas senhoras, há pouco casadas, “ex-alunas” da “escola de Kahitu”. (…)

*Acto de parir filhos una atrás dos outros.
**Casa onde dormem ou se reúnem rapazes ou raparigas solteiras.
***Solteiros.




Uanhenga Xitu (nome kimbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho) nasceu em 1924. Irmão do saudoso comandante Hoji-ia-Henda foi preso pela PIDE e esteve preso no Tarrafal de 1962 a 1970, onde escreveu os seus primeiros contos. Membro do Comité Central do MPLA, desempenhou funções como Ministro da Saúde e como embaixador. 
Tem vários livros publicados.