sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Poeminha

resta no teu cabelo
um átomo da brisa
que o tocou um dia.
o que há de mais belo
nas paisagens que viste
ficou no teu olhar...
(teu rosto, meu anelo!)
...há nesse olhar também
- não mo dizes, mas sei -
a sombra da minh'alma
projectando-se ausente...
para quê escondê-lo?

Mário António

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Praia di coquero djunto di campo

arfam, lenta, lentamente,
os desgrenhados coqueiros,
loucos acenos de gente,
junto ao mar, prisioneiros...

talvez torturadas almas
nas suas camas de chão,
acenem por suas palmas,
aos corpos que partirão...

já viram choros de escravos,
vindos do fundo do mar,
e talvez esses agravos
lhes andem no balouçar...

e de certo contarão
ao vento que lhes soluça,
sua profunda repulsa
de prisioneiros sem pão...

vai o vento em rodopio,
na sua raivosa guerra,
deixar um longo arrepio
na crosta seca da terra...

oh coqueiros de lembrar!
oh coqueiros de esquecer!
quando dos longes do mar
terá fim tanto sofrer1...

António Cardoso

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Realização

não desfrises os cabelos
não pintes os lábios
dança o makopo
passos de samba
escuta o ngoma
requebro kaviula.

olhem espantados a tua gargalhada
natural e limpa
admirem a tua beleza natural e limpa

tua beleza gritando a noite que desperta

levanta-te e caminha altiva
igual à igualdade livre dos povos

e canta
canta no coro das vozes roucas caladas séculos

não concedas ao mito
ao modelo
ao exótico.

importa apenas a mensagem
que espelhas no olhar
cumpri-la e projectá-la
despertar inexploradas energias.

...e ao entardecer futuro
um breve gesto de amor
na linguagem realizada
dos teus dedos-áfrica.

Costa Andrade

domingo, 18 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sambizanga

teu crescido lábio
cunhado a negro
mexe rumores nos canais
tão de febre lavados

aiué sambizanga.

teu nome roça
as orelhas na morte
que estende o olho
à esquina da ronda

aiué sambizanga.

teu dedo põe
risos no vento
como descritos entre
os pés curtos do medo

aiué sambizanga.

David Mestre

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Kwanza

o kwanza é um rio bonito
que corre aflito
para Luanda, a catita.
Por onde passa recita
um rosário de gritos.

o kwanza é caseiro
e às vezes molengão;
é um rio de papel
que escorre de mão em mão num tropel
o ano inteiro
a fingir que é dinheiro.

Manuel dos Santos Lima

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O outro lado das coisas

as palavras são fundantes?
também desagregam.

o amor cega?
também revela.

o ódio destrói?
também liberta.

a dúvida paralisa?
também inspira.

a coragem é altruísta?
também é soberba.

o medo atrapalha?
também protege.

a vida é tragédia?
também é gloriosa.

João Melo

domingo, 11 de dezembro de 2011

UANHENGA XITU


(…)
À noite, em frente da casa do Kahitu era o lugar de disunji. Os jovens, depois do jantar, apareciam para algumas brincadeiras de dança e de jogos.
Enquanto cá fora a gritaria das crianças e de adultos cortava a noite, o mestre, no seu quarto, estava em volta de donzelas – bonitas, feias e as de beleza média – iluminadas por um tosco candeeiro de lata.
As gargalhadas das moças estalavam, consoante o assunto, se era ou não palpitante. Mas, fora, grosso maior de gente, o barulho dos brincadores abafava as risadas indiscretas das ”alunas”.
Nessa espécie de “escola de civismo”, cada frequentadora fazia a sua pergunta às colegas ou ao mestre. Geralmente era o mestre que dava a explicação de como uma rapariga se deve portar junto de um namorado; as respostas que se devem dar ou não ao galanteador; a forma como se deve portar a moça no primeiro dia do casamento; como evitar o kubatekela*, o que se deve dizer ao namorado, quando a moça pretendida já não é honrada, e se se deve dizer ou não isso ao rapaz, antes do matrimónio; a significação dos três ou mais dias, a seguir ao casamento, em que a noiva é obrigada a dormir com a sogra ou mulher que a substitua; os deveres a atender no dia das núpcias, junto dos futuros sogros, do povo e, principalmente, das damas que a acompanham; como se elimina a vergonha de que se apossam as noivas, nas primeiras refeições, logo a seguir ao enlace.
São estas e mais estas coisas que Kahitu ministrava às moças, sem conhecimento de muitos pais. Estes alcunhavam o dormitório do mestre como quarto de kinzangala** ou de makudi***.
Eram noites mais felizes na vida do aleijado. Aquelas em que se encontrava com as raparigas no seu quarto. O petróleo era comprado pelas discípulas. Estas levavam para lá conversas muito íntimas, que ouviam das cunhadas, das tias, das mulheres de kisoko e daquelas senhoras, há pouco casadas, “ex-alunas” da “escola de Kahitu”. (…)

*Acto de parir filhos una atrás dos outros.
**Casa onde dormem ou se reúnem rapazes ou raparigas solteiras.
***Solteiros.




Uanhenga Xitu (nome kimbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho) nasceu em 1924. Irmão do saudoso comandante Hoji-ia-Henda foi preso pela PIDE e esteve preso no Tarrafal de 1962 a 1970, onde escreveu os seus primeiros contos. Membro do Comité Central do MPLA, desempenhou funções como Ministro da Saúde e como embaixador. 
Tem vários livros publicados.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Buscando o rumo

I
fui buscar o sol
pela planície ampla
e, na planície, vejo as pegadas
dum povo em êxodo,
que ali passou.

sobre os meus ombros
o sol.
sobre o meu olhar
o firmamento sem fim do sofrimento
que o silêncio do ar pesado
sequestrou.

onde ficou a tua glória,
sol?
se a minha libertação deserta
e o esteio da minha caminhada
gravado pelo chão
também ficou.

ilusão a marcar outra ilusão.

que não vá ninguém e que não fique
com o olhar parado pelo desejo,
mas que não pode, peregrino,
buscar a luz da alma liberta
se ela se apaga no caminho.

que fazer? ah! que fazer!
cruzar os braços e deixar
a fome dos desejos e os cansaços
matarem bem ao fundo a nossa ânsia?

mas deixar assim correr os passos
sem destino e sem rumo?
a que florestas da alma
ignoradas
se conduzem por si os nossos passos?

que imprevistos de sensações
e de desejos
vem beijar o porvir da manhã pura
sem nada acalentarem os nossos braços?

ficar na estrada,
na estrada só, parado,
olhando o giro de outros sóis
sem sentir a asa dilatada
do ar da brisa, da luz, em convulsões.

ah! não, a vida eu amo.
e não, ao próprio sol me dita
no seu rumo.
e vá e avance e caminhe
lançando as sementes do futuro.
- sol que pela noite se perdeu
desponta após a madrugada.

II
só existe
o que amanheceu.
depois é fruto e é semente.
e, a semente de si, já não é nada.
só a semente de novo amanheceu.

subir a planície é a vitória
mas o anseio aqui, já não ficou.

é preciso procurar outro destino
é semente que o fruto em si gerou.

o rumo atingido é outro rumo.
que a vida como sol é que dá vida.

Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Anúncio

trago os olhos naufragados
em poentes côr de sangue...

trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura,
e nos lábios, a secura,
dos anseios retalhados...

enroladas nos quadris,
cobras mansas que não mordem,
tecem serenos abraços...
e nas mãos, presas com fitas,
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...
só na carne rija e quente,
este desejo de vida!

donde venho, ninguém sabe,
e nem eu sei!

para onde vou, diz a lei
tatuada no meu corpo...

e quando os pés abram sendas,
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados,
que trazemos naufragados
se entornarem novas luzes,

ah! quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo!...

Alda Lara

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Vunge

anoitece de repente
no musseque burity
e aquela fula gentia,
trazida de longes terras,
é a noite do calvário
constantemente a chorar.

no mar um barco partia,
e seguia, rumo ao norte
levando o seu namorado
para a vida militar.

e vunge, a fula gentia
chorava perdidamente!

ao longe já mal se via,
uma luz verde, - tão verde! -
que no mar largo seguia!

um grande amor só é grande
quando algum dia se perde.

e vunge, a fula gentia
a do sorriso de prata,
a chorar quase se mata
a chorar quase sorri...

anoitece de repente
no musseque burity

Tomaz Vieira da Cruz

domingo, 4 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Presença do deserto

presença do deserto que não finda,
sem ti o que seria, a imensidão
do meu deserto longo, em escuridão
sem o brilhar do sol, em luz infinda,

que dardejando em ti, te tornou linda
qual borboleta esquiva em solidão
abrindo asas frementes, ao condão
da liturgia etérea, que não finda!

se por te ver chorar também eu choro...
se é minha, a grande dor da minha dor,
e igual à tua sorte que deploro,

que sejas no teu reino, sempre aquela
que feita minha irmã, na mesma cor
segue em destino o fim, que um amor sela...

Maria Joana Couto