sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Requiem para um homem de paz

tangencialmente assim
na ambivalência das distâncias

o silêncio dos mortos
odes rasgadas no fundo
do mais fundo tempo
nos jardins das cruzes
plantadas sobre silêncio

e há-de vir em coro
cantado tocado e chorado
rompendo por sobre nuvens
de fumos e álcoois vaporosos
e há-de ser ouvido

o silêncio dos mortos
vindos da latitude longe
e o rasgar silvante
de ponta em aço e fogo
há-de ser entendido

só então se atingirá
luther king morto pela paz
das armas disparadas
silêncio da carne apodrecendo
mas de voz perpetuada

e os outros também dirão
da história de corpos anónimos
- tangencialmente assim
na ambivalência das distâncias
gente mártir da liberdade

o silêncio dos mortos
cantados tocados dançados
ritmos de protesto
tintos de sangue derramado
nas pontas das baionetas

e no ínterim dos carros patrulhando
por entre os tanques enfileirados
e gases e fogos ateados
o silêncio dos mortos
como aleluia de paz

até nas noites das buates
no remanso dos teatros
em tudo que será festa
o silêncio dos mortos
no aço em fogo da metralha.

Ruy Burity da Silva