sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poema passageiro

passar...

eis o destino da vida:
um momento - outro momento...

passar - é ser como o vento
que suspira, asa dorida,
débil ai...
é ser como a leviandade
do pensamento
- incerta corrente de ar
que vem e vai...

passar
- é ser como a tempestade
que arrasa
o campo, a árvore, a casa,
e mais enraivece o mar
e até o rio ou as lagoas calmas,
e também agita as almas,
- e passa...

ser como a nuvem sombria
que traz a graça e a desgraça,
traz a dor, traz a alegria,
- e passa...

passar...
- é ser como a onda do mar,
que sobe, espumeja e cresce,
e a espuma desaparece,
e a onda passa,
como passa uma ilusão
seguida de outra ilusão...

ser como a ave que esvoaça,
ser ave de arribação.
(quem pode, olhando para o ar,
ver quantas aves cruzaram,
pelos séculos fora, o céu?...)

ser como o sol e o luar...

passar - é ser como eu
em busca do paraíso!

só consigo limitar
este palmo de chão onde indeciso piso;
não deixei sombra nem rastros
pelos muitos caminhos que trilhei,
rompendo por entre as gentes
como as estrelas cadentes
rompendo através dos astros.
que sei de mim? nada sei.
mas eu passei...

tudo o que é forma, movimento ou cor,
tudo passa e perpassa...
só a dor e mais o amor,
só a dor e o amor não passam, sempre eternos!

nem que o fogo dos infernos
incendiasse o mundo
e o dilúvio dos mares num só mar
arrasasse a terra inteira,
o amor e a dor, nobre par,
semente dum novo mundo,
em comunhão feiticeira,
em casamento fecundo,
gritando a vida forte, eternamente forte,
triunfariam como a fénix sobre a morte,
- essa forma fatal de passar...

Geraldo Bessa Victor

1 comentário:

Laudy disse...

Lindo poema...Verdadeiramente o amor e a dor não passam.
Realmente poema alimenta a alma... Parabéns Talentoso