sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Aspiração

ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no congo na geórgia no amazonas

ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

e sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

ainda a minha vida
oferecida à vida
ainda o meu desejo

ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu querer

e nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

o meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

Agostinho Neto