quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Apontamento

o nosso leito é das sete pragas
e dos minutos contados
a golos de café.

odiamos os outros,
fitando as nossas mãos estéreis.

assim ocultamos o tédio;
assim tentamos domá-lo
com as mãos, viúvas

da frescura dos seios,
errando pelo vago das esquinas.

Tomaz Kim

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Como se o mar

como se o mar não nos sorrisse imenso
por cada passo de onda um espanto novo
rota de direcções sem nome e sem plano
viagem que fizemos sem ter barco
poemas que escrevemos sobre a areia
na garrafa mais imaginária que se não partiu
nem se perdeu porque vai sempre ter
ao mesmo porto.

como se o mar não nos sorrisse imenso
e nele viessem vagas de outras vagas
depor modificando-se na areia
onde as construções se desmoronam
e levantam.

(saboreando o sal de ti
com a lágrima alegre em onze de novembro
caída sobre as bocas
de tanto amargo dantes)

como se o mar não nos parecesse estranho
por não lançar as mais nervosas ondas
para as praias onde o nosso sangue
é cotação do dólar imperial.
como se o mar de coro inteiro não pudesse
falar com a maior fúria virada a essa terra
para dizer: eeh kamérica! é só pela liberdade
que daquele lado um povo faz e vence a guerra!

Manuel Rui

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Longe-longe

as ondas batem
nas praias lá longe-longe...

e os salpicos
das ondas lá longe-longe
alagam as praias de todo o mundo...

e num segundo,
as ondas lá longe-longe
são espelhos de água a brilhar
nas praias de todo o mundo...

Lília da Fonseca

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Amo o silêncio da noite!

amo o silêncio da noite,
o azul escuro do céu,
as densas nuvens errantes,
e seu pranto que verteu:
então a terá se cala
e o mar bravio cedeu
e o negro mocho agoureiro
o seu canto emudeceu.

amo o silêncio da noite,
quando suave instrumento,
nesta hora faz olvidar
agro-passado tormento;
quando leve sussurando
fresca aragem, brando vento
apressurado nos traz
algum novo pensamento.

amo o silêncio da noite,
quando em luz prateada,
modulando amenos versos
os dirijo à minha amada:
e quando todos dormindo,
só eu vejo despertada
a minha sorte cruel,
minha sorte malfadada.

amo o silêncio da noite,
lembrando antiga paixão,
sonhando os sonhos de amor
que gozou meu coração:
oh! então sinto e lamento
só ficar recordação
dessa agora já devolvida
meiga, terna sensação.

amo o silêncio da noite,
quando contemplo a dormir
o sono de um inocente,
que dorme sem sentir:
que só ideias fagueiras
em sonhos lhe podem vir
e que dos males da vida
não sentiu o seu pungir.

amo o silêncio da noite,
quando donzela formosa,
meiga, triste e pensativa,
na voz lânguida e mimosa,
solta gemidos aos céus,
aguardando mui saudosa
por seu bem, que em largas longas terras
vive vida tão penosa.

amo o silêncio da noite,
quando de deus criador,
contemplo o imenso poder,
seu grande e infinito amor:
então ufano quisera
ser sublime trovador,
que dedicara a meu deus
doces cantos de primor.

e já que a lira não vibro
com sonora melodia,
cantarei como cantou
poeta de alta magia:
“como é belo este silêncio
“da terra todo harmonia,
“que aos céus a mente arrebata,
“cheia de meiga poesia!”

Maia Ferreira

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O onjiri pequeno olhando

o onjiri pequeno olhando
de mansinho chega-se à cacimba
e
tua imagem disforme
baila nas águas silentes

calmia de pássaros e grilos
arautos de sol
à sombra de um tempo

de mansinho chega-se à cacimba
o onjiri pequeno olhando
e
tua imagem disforme
baila nas águas silentes

Arlindo Barbeitos

domingo, 20 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Poema passageiro

passar...

eis o destino da vida:
um momento - outro momento...

passar - é ser como o vento
que suspira, asa dorida,
débil ai...
é ser como a leviandade
do pensamento
- incerta corrente de ar
que vem e vai...

passar
- é ser como a tempestade
que arrasa
o campo, a árvore, a casa,
e mais enraivece o mar
e até o rio ou as lagoas calmas,
e também agita as almas,
- e passa...

ser como a nuvem sombria
que traz a graça e a desgraça,
traz a dor, traz a alegria,
- e passa...

passar...
- é ser como a onda do mar,
que sobe, espumeja e cresce,
e a espuma desaparece,
e a onda passa,
como passa uma ilusão
seguida de outra ilusão...

ser como a ave que esvoaça,
ser ave de arribação.
(quem pode, olhando para o ar,
ver quantas aves cruzaram,
pelos séculos fora, o céu?...)

ser como o sol e o luar...

passar - é ser como eu
em busca do paraíso!

só consigo limitar
este palmo de chão onde indeciso piso;
não deixei sombra nem rastros
pelos muitos caminhos que trilhei,
rompendo por entre as gentes
como as estrelas cadentes
rompendo através dos astros.
que sei de mim? nada sei.
mas eu passei...

tudo o que é forma, movimento ou cor,
tudo passa e perpassa...
só a dor e mais o amor,
só a dor e o amor não passam, sempre eternos!

nem que o fogo dos infernos
incendiasse o mundo
e o dilúvio dos mares num só mar
arrasasse a terra inteira,
o amor e a dor, nobre par,
semente dum novo mundo,
em comunhão feiticeira,
em casamento fecundo,
gritando a vida forte, eternamente forte,
triunfariam como a fénix sobre a morte,
- essa forma fatal de passar...

Geraldo Bessa Victor

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poema da manhã

os nossos filhos
negra
hão-de trazer as ambições estampadas
nos olhos claros.

os nossos filhos
negra
hão-de trazer a vida à flor da pele escura.

os nossos filhos
negra
hão-de gargalhar o seu desprezo pelas universidades da europa
e hão-de rir-se dos que ficarem atrás nas classificações.

Os nossos filhos
negra
hão ser belos
hão-de trazer nas veias o sangue mais puro e mais vermelho
das raças de angola
e os seus peitos
hão-de chegar primeiro nas competições desportivas
da américa, da europa e do mundo.

os nossos filhos
negra
serão os construtores, os engenheiros, os médicos, os
cientistas do mundo que vem

eles pisarão quem se lhes atravessar na frente
eles hão-de fazer soar os “booguie-wooguies” de armstrong e peters
nas “boites” de paris, londres, moscovo e nova iorque
e não mais terão lugares secundários nas bichas de autocarros de joburgo.

e principalmente
negra
os nossos filhos

chegarão sempre primeiro
nas competições espirituais e desportivas
da europa
da américa
e do mundo.

e principalmente
negra
eles serão
os nossos filhos.

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Visita

pelas artérias da noite
entra voz e trovador,
silêncio da nossa vida
e tempo do nosso amor.

pelas cortinas de sonho
e do pranto em leito aberto,
chega de longe, a meu corpo,
teu canto que vem de perto
para beijar, no meu berço,
o caixão onde me perco

Manuela de Abreu

domingo, 13 de novembro de 2011

Gabela, capital da província do Kwanza-Sul, completou 104 no passado dia 28 de Outubro

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Aspiração

ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no congo na geórgia no amazonas

ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

e sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

ainda a minha vida
oferecida à vida
ainda o meu desejo

ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu querer

e nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

o meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

Agostinho Neto

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nós Àfrica

nosso coração áfrica no peito batucando
ritmo

nosso sangue áfrica amor vermelho
feito rio
pra nossa sede

carapinha savana membros mulemba
veias nilo cuanza níger zaire
olhos trópico vida amor tórrido
vida contra a escravidão
nós áfrica

áfrica nosso ritmo
nosso sentido de existir

Jorge Macedo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

É duro de encarar o sol que brilha

é duro de encarar o sol que brilha
e nada pode, a cólera do touro
contra a manada dos areais do rio.
quem recebeu a cauda
a cauda arrastará.
não basta juntar a lenha
para recolher os molhos:
é preciso que a maldade os não desfaça.

sujeito-me a vestir as velhas peles
e olho à volta
atento ao que se passa.
eu sei que há luz e sombra
nuvens e chuva...
mas chegará a minha voz aos vossos pés
como aos da onça o grito da capota?

Guarda a cigarra o seu canto
perante a voz dos tambores.

Ruy Duarte de Carvalho

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Requiem para um homem de paz

tangencialmente assim
na ambivalência das distâncias

o silêncio dos mortos
odes rasgadas no fundo
do mais fundo tempo
nos jardins das cruzes
plantadas sobre silêncio

e há-de vir em coro
cantado tocado e chorado
rompendo por sobre nuvens
de fumos e álcoois vaporosos
e há-de ser ouvido

o silêncio dos mortos
vindos da latitude longe
e o rasgar silvante
de ponta em aço e fogo
há-de ser entendido

só então se atingirá
luther king morto pela paz
das armas disparadas
silêncio da carne apodrecendo
mas de voz perpetuada

e os outros também dirão
da história de corpos anónimos
- tangencialmente assim
na ambivalência das distâncias
gente mártir da liberdade

o silêncio dos mortos
cantados tocados dançados
ritmos de protesto
tintos de sangue derramado
nas pontas das baionetas

e no ínterim dos carros patrulhando
por entre os tanques enfileirados
e gases e fogos ateados
o silêncio dos mortos
como aleluia de paz

até nas noites das buates
no remanso dos teatros
em tudo que será festa
o silêncio dos mortos
no aço em fogo da metralha.

Ruy Burity da Silva

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lágrima, gota lágrima

lágrima
é uma sensação que escorrega.
mundo está seco de coisas e trans-sensações
assim a lágrima presta-se
a desressequir o mundo.
porque:
mundo está duro;
mundo está pedinchar molhadezas
que só amor tem num bolso;
mundo está ainda grande e
tão pequenino já.
lágrima, afinal,
é uma carinhosa correção do mundo
e tem pontes com a amizade.
porque:
sinónimo sincero de amizade
é celebração.
assim mesmo, ela, húmida, bem húmida.

Ondjaki