sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rosto da muralha

um homem com o coração nas mãos
correu pela borda da noite
para oficiar as trevas

havia uma guerra anunciada
e três guerras por resolver
em toda a parte

tinham mudado os sinais
um homem abraçado à sua própria sombra
estendia o coração
para resolver o caminho

era difícil perceber
por que começavam os dias a meio das noites
era difícil perceber
a noite única que restava
no lugar do coração antigo

um homem vai bêbado de seu próprio sangue
e mal ouve a voz de anunciar princípios
perdeu a capacidade do gesto
não consegue deixar o rasto
de sua mão de sangue na face da muralha
as mãos já não são mãos
mas um tercido de veias
que pingam no útero da floresta

um homem arrancou o seu próprio coração
p'ra fundar a noite
encontrar o caminho
descobrir a voz
construir a fala
deixar um gesto de prata
no rosto da muralha

Paula Tavares












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