quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Naufrágio

minina piquena
que fugiu à escola
fez fuga pra brincar

fez bonecas fez vestidos brincou
no chão à sombra do cajueiro

apanhou cem réis
comprou jinguba
(já sabe tabuada
“um e um dois dois e um três”)

subiu aos paus,
correu cantou dançou
foi atrás dos soldados a marchar

foi à praça roubou cola
foi à praia tomou banho
pediu um doce ao doceiro
e na venda da baixa olhando, olhando, olhando, uma
boneca grande
sonhou com muito dinheiro

viu a patroa da mamã lavadeira
andar a escolher coisas
e ora triste ora prazenteira
correu saltou brincou livre como os passarinhos
olhando tudo tão diferente do musseque
sem cães vadios sem casas de chapa
nem porcaria nos caminhos

minina piquena
que fugiu à escola
fez fuga pra brincar

brincou brincou brincou
sem ódio nem raiva
cheia de enganos
agarrada à boneca suja de trapos
… tem onze anos
só sabe rir cantar saltar
brincar brincar brincar

minina piquena
que fugiu à escola
… um dia

há-de amadurar tristemente cedo
à luz radiosa do sol quente…
… às mãos impuras da rua…

António Jacinto