segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Chuva no deserto

ninguém sabe a sofreguidão
que é a chuva do deserto…
a vida que se prende sequiosa
em cada lágrima bendita
doce pérola d’0mbrera
tamborilando prata a cantar
o principio divino de todas
as coisas futuras da fartura
sempre escassa a crescer
vento e poeira e tempo…

e as gentes do namibe
- vestindo cacimbos e sonhos –
rezam cantando abençoando
a chuva nos lábios-lagos
molhados d’ombrera…

Namibiano Ferreira

domingo, 30 de outubro de 2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sonhos

vem! desliza para fora
de ti
e cobre-te com o cacimbo
da minha ténue madrugada.
a minha mão aberta
será a flor
com que ornarás
a anhara enorme
do teu espanto
e na mulola do teu olhar
deslizarão os meus
sonhos
num dongo
sem leme…

vem! junta-te a mim
e vamos rumar ao planalto
da esperança
pelo bruco que as
tochas de lua
deixam ver…

Jorge Arrimar

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Naufrágio

minina piquena
que fugiu à escola
fez fuga pra brincar

fez bonecas fez vestidos brincou
no chão à sombra do cajueiro

apanhou cem réis
comprou jinguba
(já sabe tabuada
“um e um dois dois e um três”)

subiu aos paus,
correu cantou dançou
foi atrás dos soldados a marchar

foi à praça roubou cola
foi à praia tomou banho
pediu um doce ao doceiro
e na venda da baixa olhando, olhando, olhando, uma
boneca grande
sonhou com muito dinheiro

viu a patroa da mamã lavadeira
andar a escolher coisas
e ora triste ora prazenteira
correu saltou brincou livre como os passarinhos
olhando tudo tão diferente do musseque
sem cães vadios sem casas de chapa
nem porcaria nos caminhos

minina piquena
que fugiu à escola
fez fuga pra brincar

brincou brincou brincou
sem ódio nem raiva
cheia de enganos
agarrada à boneca suja de trapos
… tem onze anos
só sabe rir cantar saltar
brincar brincar brincar

minina piquena
que fugiu à escola
… um dia

há-de amadurar tristemente cedo
à luz radiosa do sol quente…
… às mãos impuras da rua…

António Jacinto

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Psiquiaria II

todos me acham que sofro de miséria
faço de cada história um reboliço.
mas devagar essa cicatriz banal eu escrevo;
esse ardil de loucos é um poemário;

um documento daquelas minhas dores.
tudo vai mal, dizem. Tudo vai !
vai a raiva tão simples como fazer perguntas;
vai de passada qualquer maluco palpitando muita gente;

e vão outros palpitando os relógios automáticos:

...tic-tac tic-tac tic-tac...
os tique-taques nascem das nossas bocas.
bocas dissolvidas. Noites volémicas..
os sentidos moídos na rua dos atritos.

João Tala

domingo, 23 de outubro de 2011

LUANDINO VIEIRA


(...)
O fio da vida que mostra o quê, o como das conversas, mesmo que está podre não parte. Puxando-lhe, emendando-lhe, sempre a gente encontra um príncipio num sítio qualquer, mesmo que esse princípio é o fim doutro princípio. Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.
O papagaio Jacó, velho e doente, foi roubado num mulato coxo, Garrido Fernandes, medroso de mulheres por causa a sua perna aleijada, alcunhado de Kam'tuta. Mas onde começa a estória? Naquilo ele mesmo falou na esquadra quando deu entrada e fez as pazes com Lomelino dos Reis que lhe pôs queixa? Nas partes do auxiliar Zuzé, contando só o que adianta ler na nota de entrega do preso? Em Jacó?
É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nascem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o vento é que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bocados de sol pendurados. As pesoas passam lá, não lhe ligam, vêem-lhe ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o maduro das frutas, os monandengues roubam as folhas a nascer para ferrar suas linhas de pescar e ninguém pensa: como começou este pau?
Olhem-se bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe comida por ali, mas o pau vive sem folhas. Subam nele, partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons para paus-de-fisga,cortem-lhe mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra. (...)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vem, desespero

vem, desespero
mata em minhas veias o brilho desta lua
a enfeitar com simulacros de prata
a miséria de vidas sem destino.

vem, desespero
gela nas bocas o murmúrio de conformismo
esse ópio de vontades
a sabotar a flor única de esperança
na planície dos homens de rastos.

vem, oh! vem desespero,
e cria nos homens o ímpeto dos tornados.

Jofre Rocha

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Como a natureza é egoísta

tu podias deter-te. docemente.
e ensinar aos outros
o que não aprendeste.

tu podias prosseguir a tua marcha heróica
e ver de perto com a natureza
o que a natureza não te permitiu ver.

tu podias deter-te.
mas não adiante da minha tumba.

o último acto -
o teu último acto
tu conhece-lo:
ele torna mudos os teus braços...
surdas as tuas palavras
e cega a tua língua
crivada de palavras
que tu ignoras.

João Maimona

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Cristina do Lubango

eu olhei,
tu olhaste,
eu sorri,
tu sorriste.
eu convidei.
aceitaste...

depois,
nós dois
conversámos
e combinamos
que a partir daí
nem raiva
nem dor
nem ciúme.
depois...

(eu e tu,
tu e eu,
eu e tu...
o lençol derramado no tapete!
um queixume...)

agora,
eu,
eu,
eu feito uma fera...
eu à tua espera!

Aires de Almeida Santos

domingo, 16 de outubro de 2011

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rosto da muralha

um homem com o coração nas mãos
correu pela borda da noite
para oficiar as trevas

havia uma guerra anunciada
e três guerras por resolver
em toda a parte

tinham mudado os sinais
um homem abraçado à sua própria sombra
estendia o coração
para resolver o caminho

era difícil perceber
por que começavam os dias a meio das noites
era difícil perceber
a noite única que restava
no lugar do coração antigo

um homem vai bêbado de seu próprio sangue
e mal ouve a voz de anunciar princípios
perdeu a capacidade do gesto
não consegue deixar o rasto
de sua mão de sangue na face da muralha
as mãos já não são mãos
mas um tercido de veias
que pingam no útero da floresta

um homem arrancou o seu próprio coração
p'ra fundar a noite
encontrar o caminho
descobrir a voz
construir a fala
deixar um gesto de prata
no rosto da muralha

Paula Tavares












quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tudo se gasta

nós vestimos de sonho
embelezamos com flores
tanta sucata!

mas a ilusão
também se gasta
sensação de ouro e prata
de repente
lata

Tomaz Jorge

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Noite longa

a noite é longa,
o sonho etéreo
e sem raiz...
mas sinto que a ideia
do sonho me ronda
e sou feliz!

se viesses amante,
com braços de prazer
e olhos de serpente
... amaria apenas
a minha condição de mulher...

se viesses nobre,
com rasgos de luz
e espadas de firmeza
... amaria apenas
o sentido da nobreza...

se viesses herói,
com medalhas de sangue
e cicatrizes de guerra
... amaria apenas
a terra onde caíste exangue...

se viesses puro,
com cravos nos pés
e espinhos na fronte
... amaria apenas
o teu sofrimento...

Amélia Veiga

domingo, 9 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Coqueiro

ali, na rua do carmo,
um coqueiro ficou abandonado,
quando destruíram a casa velha
a que deu sombra.

e onde um par enamorado
teve sonhos de amor,
nesse pedaço de luanda antiga
agora modernizado.

e o coqueiro ligado à terra
tombado na direcção
da rua da pedreira
como um filho nos maternos braços
ali ficou.
talvez para saudar alguém
que muito sofreu e amou...

mas tudo acaba e o tempo
tudo anda a destruir
- porque tudo é passageiro,
quando se vive a mentir.

ó pincelada verde na cidade,
ruína e gótica coluna
de mármore verde...

morre, coqueiro, morre,
antes que os homens, tão maus,
cometam a crueldade
de te expulsar e matar.

morrer de pura saudade...

e perdoa, mas sofre como um homem,
coqueiro de verdes palmas,
porque tudo, afinal, na vida, é triste,
quando se matam almas...

Tomaz Vieira da Cruz

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Não...

não
porque as pedras têm vida.
não e não
porque as pedras têm vida
quando impõem das calçadas
a vontade
das vozes operárias e dos homens que as movem.
não
porque elas protestam e caminham
quando afiam as enxadas.
não e não!
porque as pedras que se movem
trazem vida.

Costa Andrade

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A construção do tempo

mobilizo os poderes iniciáticos, à memória
subtraídos, os gestos
audazes que só o devir
perdoará, as ilusões temporãs, pobres lâmpadas
para sobreviver ao presente.
amanhã ,
um sinal qualquer, misterioso e sem nome,
dirá: aqui esteve alguém que, silencioso,
colheu o doce segredo das tempestades.

João Melo