segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A tua voz Angola

nos tribos
e assobios
dos pássaros bravios
ouço a tua voz angola.

dos fios
esguios
em arrepios
de mulembas sólidas
escorre a tua voz angola.

nas ondas calemas
barcos e velas
dongos traineiras
âncoras e cordas
freme a tua voz angola.

em rios torrentes
regatos marulhentos
lagoas dormentes
onde morrem poentes
brilha a tua voz angola.

no andar da palanca
no chifre do olongo
no mosqueado da onça
no enrolar da serpente
inscreve-se a tua voz angola.

no acordar dos quimbos
nos cúmulos e nimbos
nos vapores tímidos
em manhãs de cacimbo
flutua a tua voz angola.

na pedra da encosta
no cristal de rocha
na montanha inóspita
no miolo e na crosta
talha-se a tua voz angola.

do chiar dos guindastes
do estalar dos braços
do esforço e do cansaço
emerge a tua voz angola.

no ronco da barragem
no camião da estrada
no comboio malandro
nos gados transumantes
ecoa a tua voz angola.

dos bongos e cuicas
concertinas apitos
que animam rebitas
farras das antigas
salta a tua voz angola.

a flor da buganvília
a rosa e o lírio
cachos de gladíolos
o gengibre e a cola
perfumam a tua voz angola.

ouve-se e sente-se e brilha
a tua voz angola

inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
a tua voz Angola

vai com o vento goteja com o suor
a tua voz angola

por toda a parte por toda a parte
a tua voz angola

que voz é essa tão forte e omnipresente
angola?

que voz é essa omnipresente e permanente
angola?

é a voz dos vivos e dos mortos
de Angola
é a voz das esperanças e malogros
de Angola
é a voz das derrotas e vitórias
de Angola
é a voz do passado do presente e do porvir
de Angola
é a voz do resistir
de Angola
é a voz dum guerrilheiro
de Angola
é a voz dum pioneiro
de Angola.

Antero Abreu