domingo, 4 de setembro de 2011

MANUEL RUI



(…)
Cada um de nós não se cansava de fitar pensando os cabelos brancos dos outros. Cabelos de envelhecer. E não era com tristeza que o fazíamos mas sim com uma estranha e singular alegria. Uma íntima alegria histórica. Nesse teimar de nunca nos considerarmos velhos e apenas envelhecermos na imagem doso outros. Mas a imagem dos outros era cada um de nós e nossas vidas haviam percorrido imenso tempo comum. Sem medida e sem cronologia. Naquela tarde, respirávamos o ar quente da superfície. Só que em nossas narinas, em nossas bocas, restava ainda o cheiro e o sabor do tempo. Do tempo passado
Debaixo do mar. Sim. Tínhamos passado muitos anos debaixo do mar. E todo esse mundo aquático e de sedução infinita, trazíamo-lo à flor da pele como se de algas nos tivéssemos oleado e o tempo se medisse, lentamente mas sem cálculo, nas minúsculas bolhas de ar disparadas da boca dos peixes. Tanto tempo! E não foi apenas o capricho do major. O seu amor pela aventura. A paixão pela arqueologia submarina. Não foi apenas isso que nos seduziu. Mais, muito mais, foi a ideia de nos transformarmos sempre. Percorrermos todos os caminhos em todos os sentidos até dominarmos o tempo. Dominar para nós era perceber. E o tempo era mais do que as pessoas, as coisas, a vida. Era o seu sentido. E nunca poderíamos ter conhecido tanto as pessoas se não tivéssemos dominado o tempo.
Durante o tempo que vivemos debaixo do mar, muito em nós se transformou. Tal como acontecera quando da nossa estada na ilha. Muitas vezes chegámos a corrigir o antes com o depois. Outras o depois com o antes. Mas tudo sempre se conjugou no nosso intento.
(...)

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