sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Simples poema de amor

o marfim das tuas coxas o mesmo é dos teus dentes
cavalgas louca de uma fome que não mentes

grandes quedas suicidas provocas sobre os abismos
a sub-pele do teu corpo percorrida de sismos

colocas duas estrelas no fundo negro do espaço
e assustada me apertas, mordes-me o peito e o braço

e gritas como ferida, como alcançada em voo
de um dardo veloz e denso, de um poste que se elevou

e cais como uma flor despetalando-se, ave que ainda ofega
e bate as asas de amor, desesperada e cega

e lança no meu rosto o ódio que lhe resta
oh, vencida, apesar de tudo, nesta festa!

Mário António

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Onda

vim e vou: onda batida,
ontem, um sonho de dois,
quem sabe, simples partida
sem norte, e eu vim depois,

como a chuva ou a flor,
nada mais. já amanhã,
morrerá a onda de dor
fingida ou não, folgazã,

séria ou não, e ficará
só a praia com gaivotas,
e novo mar se abrirá
noutro ventre em novas rotas...

vim e vou: onda batida.
hoje, amanhã, até quando
vier a praia apetecida
que a vida vai fadando...

António Cardoso

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O encontro das mãos

quando
no encontro das mãos
damos o encontro dos destinos
e nos nossos rostos reconhecemos
a mesma estrela que amanhece

quando
no encontro das mãos
agarramos nos dedos apertados
a fibra dos músculos prontos
e o tamanho do salto p'ra muralha

quando
no encontro das mãos
entrelaçamos todos os elos numa só corrente
o povo na luta

então
sagramos no latejar dos pulsos
a vontade de pertencermos ao futuro
quando a paz for apenas a luta mansa
do esforço dos homens sobre a terra.

Arnaldo Santos








domingo, 25 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Essa pomba de Picasso!

é em vão
que querem engaiolar
essa pomba,
essa pomba de Picasso!

com que raiva lhe tentam deitar a mão
os senhores dos “trusts” de aço,
das minas e dos petróleos,
os que fabricam canhões
os da finanças e os dos negócios,
os do feroz capital…

é em vão!
amparada pelos simples,
adeja no coração
dos homens e das mulheres
de todas as latitudes,
de todas as longitudes.

mas, cuidado, isso não basta,
oue os caçadores são hábeis.

é precisa uma floresta de braços
erguidos para a proteger,
e uma torrente de sonho,
de entusiasmo, de juventude e de fé;
que todos, todos de pé,
a saibamos defender
na procura do caminho
que dos nossos corações
vai direito ao imenso azul…

para que adeje no espaço
envolvendo o mundo inteiro
no seu destino de amor…
ela,
essa pomba,
essa pomba de Picasso!

Lília da Fonseca

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Canção do exílio

encerrar-te-ia na palavra
amor
escrever-te-ia um poema
hora
dir-te-ia a dor que dói

escrever-te-ia um poema
não
o vento vai entre o medo e o verde
noite
dir-te-ia áfrica dir-te-ia uma roa
medo

escrever-te-ia um poema longe
exílio
violão corpo feito de negro
amor
a dor dada na razão
separação

escrever-te-ia um poema
rasgo
o concreto recto dos olhos
dança
entregue ao amor gasto
das sílabas

serena senhora minha
sem longe   morta


David Mestre

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tempo da História

ao princípio, o viril desflorar do medo,
lúcida loucura e cobiça e fé e garbo
a rematar uma nação quatro séculos alfim,
sem medir quantas lanças, quanto sangue.

declamaram-se versos de epopeia
espontânea e sem freio.
amaram-se corpos de sol e canela
e de sal e tufões, o leito.

desfolhada a rosa-dos-ventos,
ficou ainda a memória viva
a reter, donairoso, o sonho.

da rosa-dos-ventos, agora,
suas pétalas e a loucura e o garbo
que lábaro, que labéu, que lamúria?

Tomaz Kim

sábado, 17 de setembro de 2011

17 de Setembro, Dia do Herói Nacional

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Viagem em torno de ti

amo o cais e as estações
porque delas se parte.
amo partir
e todos os dias regresso a ti
e te procuro na hora lenta
dos passos perdidos
nesse cais
em que te deixei,
sonho tatuado
a bordo de um navio encalhado
no peito de um marinheiro
que jamais partiu.

Manuel dos Santos Lima

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Prendisajem

o tomate avermelha mundos.
o cheiro da terra perdoa constipações.
folha é parede verde
para sol chegar.
flor é outra narina da abelha.
alcunha de qualquer jardim
é biolabirinto.
a mosca exagera em
amizades com a merda.
o pieilampo é a lanterna do poeta.
o porco-espinho exagera em
modos de precaução e
a mandioca tuberculiza o chão.

...

o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade.


Ondjaki

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A tua voz Angola

nos tribos
e assobios
dos pássaros bravios
ouço a tua voz angola.

dos fios
esguios
em arrepios
de mulembas sólidas
escorre a tua voz angola.

nas ondas calemas
barcos e velas
dongos traineiras
âncoras e cordas
freme a tua voz angola.

em rios torrentes
regatos marulhentos
lagoas dormentes
onde morrem poentes
brilha a tua voz angola.

no andar da palanca
no chifre do olongo
no mosqueado da onça
no enrolar da serpente
inscreve-se a tua voz angola.

no acordar dos quimbos
nos cúmulos e nimbos
nos vapores tímidos
em manhãs de cacimbo
flutua a tua voz angola.

na pedra da encosta
no cristal de rocha
na montanha inóspita
no miolo e na crosta
talha-se a tua voz angola.

do chiar dos guindastes
do estalar dos braços
do esforço e do cansaço
emerge a tua voz angola.

no ronco da barragem
no camião da estrada
no comboio malandro
nos gados transumantes
ecoa a tua voz angola.

dos bongos e cuicas
concertinas apitos
que animam rebitas
farras das antigas
salta a tua voz angola.

a flor da buganvília
a rosa e o lírio
cachos de gladíolos
o gengibre e a cola
perfumam a tua voz angola.

ouve-se e sente-se e brilha
a tua voz angola

inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
a tua voz Angola

vai com o vento goteja com o suor
a tua voz angola

por toda a parte por toda a parte
a tua voz angola

que voz é essa tão forte e omnipresente
angola?

que voz é essa omnipresente e permanente
angola?

é a voz dos vivos e dos mortos
de Angola
é a voz das esperanças e malogros
de Angola
é a voz das derrotas e vitórias
de Angola
é a voz do passado do presente e do porvir
de Angola
é a voz do resistir
de Angola
é a voz dum guerrilheiro
de Angola
é a voz dum pioneiro
de Angola.

Antero Abreu

domingo, 4 de setembro de 2011

MANUEL RUI



(…)
Cada um de nós não se cansava de fitar pensando os cabelos brancos dos outros. Cabelos de envelhecer. E não era com tristeza que o fazíamos mas sim com uma estranha e singular alegria. Uma íntima alegria histórica. Nesse teimar de nunca nos considerarmos velhos e apenas envelhecermos na imagem doso outros. Mas a imagem dos outros era cada um de nós e nossas vidas haviam percorrido imenso tempo comum. Sem medida e sem cronologia. Naquela tarde, respirávamos o ar quente da superfície. Só que em nossas narinas, em nossas bocas, restava ainda o cheiro e o sabor do tempo. Do tempo passado
Debaixo do mar. Sim. Tínhamos passado muitos anos debaixo do mar. E todo esse mundo aquático e de sedução infinita, trazíamo-lo à flor da pele como se de algas nos tivéssemos oleado e o tempo se medisse, lentamente mas sem cálculo, nas minúsculas bolhas de ar disparadas da boca dos peixes. Tanto tempo! E não foi apenas o capricho do major. O seu amor pela aventura. A paixão pela arqueologia submarina. Não foi apenas isso que nos seduziu. Mais, muito mais, foi a ideia de nos transformarmos sempre. Percorrermos todos os caminhos em todos os sentidos até dominarmos o tempo. Dominar para nós era perceber. E o tempo era mais do que as pessoas, as coisas, a vida. Era o seu sentido. E nunca poderíamos ter conhecido tanto as pessoas se não tivéssemos dominado o tempo.
Durante o tempo que vivemos debaixo do mar, muito em nós se transformou. Tal como acontecera quando da nossa estada na ilha. Muitas vezes chegámos a corrigir o antes com o depois. Outras o depois com o antes. Mas tudo sempre se conjugou no nosso intento.
(...)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amada

amada
minha amada

na madrugada
de teu olhar
desponta
devagar devagarinho
a aurora
de um dia
inda por chegar

amada
minha amada
não feches os olhos

Arlindo Barbeitos