sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ode milenária

a angústia dos ramos do velho imbondeiro,
os costados abatidos da montanha.
o céu onde esvoaça o negro carniceiro,
são retratos de agora nesta terra estranha,
postais lendários, de gosto perturbante,
epitáfios de uma nova literatura
sabiamente abstrata e delirante.

uma febre alada de horrível formusura
contaminou a pátria ainda imperfeita.
vermes repugnantes de ventre parasita
gerados em antiquíssima maleita
que às vezes se acama
outras vezes se agita,
nadam cada vez mais afoitos,
pairam cada vez mais afeitos
ao pus que há séculos afecta
esta pátria de glórias e feitos,
esta nação febril e inquieta.

e tu meu irmão, que te chamas nandjala
porque nasceste num ano de fome inglória,
algures, em pleno século vinte,
diz-me qual foi o ano da fartura
dos últimos dois mil da nossa história!

acreditam alguns que o nosso irmão,
operário amarrado em laços de ignorância,
camponês prisioneiro do cepo da tradição,
poeta de olhos vendados por velhos nevoeiros,
está destinado ao pedestal da glória!
mas a glória dos mártires é martírio,
a glória dos heróis é génio,
a glória dos crentes é sagrada
e a glória do estado é um quinquénio
de economia mais ou menos frustada!

e como sempre,
penélope indigente,
bordando e desbordando em carne viva,
com a força obstinada duma ideia cativa,
a glória do nosso povo é uma nascente
que brota em polvorosa na ondjiva!

Henrique Abranches

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