quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O tocador de marimba

aquele negro, aquele, em cujos braços
a marimba ressoa em som divino,
aquele negro, cuja voz é um hino
mais para além do além e dos espaços…

aquele negro, artista peregrino,
só enleva os meus mesquinhos passos,
e galvaniza os meus sentidos lassos,
e prende o meu destino ao seu destino…

ah! se eu tivesse o teu engenho e dom,
e a minha lira, em vez de rouca e lassa,
fosse marimba de sublime som…

ah! se eu tivesse o teu cantar profundo,
num poema eterno cantaria a raça
por todo o mundo e para além do mundo!...


Geraldo Bessa Victor

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O caminho das estrelas

seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

não abstracto
incolor entre ideais sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raíz


mas concreto
vestido do verde
do cheiro das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

a liberdade nos olhos
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de zaires calaáris montanhas luz
vermelha das fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual de vozes tamtam
num ritmo claro de áfrica

assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo

Agostinho Neto

domingo, 28 de agosto de 2011

ONDJAKI


“Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo.
Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras; sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, uma pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência.
Porra, deixa te perguntar ainda: uma carraça pode matar um gajo?
Ai, tas a rir?! E só vais na primeira ngala… Ouve só bem a pergunta, porque duma pergunta é que tuso pode começar. Calma, vou-te explicar tudo, o tintim pelo tintim, temos a tarde toda e se for preciso, tu sabes, depois da tarde vem a noite, nada de pressas que estômago não gosta disso, conselho da médica amiga do mô amigo Burkina. Gala só, isso é nome: Burkina?! Num ri só assim no outro que você num conhece, bom homem então, grande mô camba de todas aflições deste mundo e do outro, é verdade, porque eu mesmo aqui que estou, junto contigo, teus sorrisos, tua assistência, teu cumbú, tuas birras, eu mesmo é que posso falar do outro mundo. Tem razão, desculpa tanta confusão então; vamos iniciar os primeiros tintins.
O caso do Cão primeiro, quer dizer, não vou poder falar do Cão sem falar da dona também, mas supondo: o Cão, que não era um cão, mas o Cão, uma besta, grande animal de mangonha e sono, todos dias, o muadiê habitava a melhor parte do cubíto então, num acreditas? Porra, se tas a pensar que tou grosso, podes tirar o cabrito da chuva! Isso num tem nada a ver com os poderes do álcool, não vale a pena te espantares já, guarda pra mais tarde então, vem aí coisa de muito mais, mais-mais, mais-mais, o muito mesmo”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O búzio

fecha só os olhos meu amor. e devagar
escuta os mesmos sons. a água
escorre para a sede quente:
areia de pés nús.

encosta só o ouvido. respira
esta harmonia deste corpo. os mesmos sons
projectos do tamanho deste mar.

suave esta espiral. flauta de ruídos
para ouvir.
e não se parte o corpo. só pelos sons
os mesmos sons. tocata para um dia.

escuta. compara. não vês diferença
entre o cantar e o ser
de uma alegria?

Manuel Rui

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Faísca caiu

faísca caiu
lá longe, cá perto,
não sei, não a vi!
mas faísca caiu
na terra do negro
queimada do sol
lambida pelo vento
varrida pela chuva,
faísca caiu.
caiu com a chuva
que fertiliza a terra,
que a beija com fúria
de braços possessos
de noite e de dia…
faísca caiu
a chuva também.

a terra molhada,
o milho crescido,
barriga está cheia,
dinheiro no bolso…

faísca caiu!
maldita faísca,
suco malvado
deitou faísca
no chingue no muntu,
matou a família!

mamãe morreu,
papai morreu,
o mano morreu…
morreu a família
ficou só catemo…

faísca caiu,
lá longe… cá perto…
faísca caiu
a chuva chegou.
em casa do branco
bendita faísca!

na casa do negro
faísca caiu,
ficou sem albergue,
sem lar, sem pão…
família morreu…
maldita faísca!

aquela faísca
prenúncio de chuva
que a uns dá fortuna
e a outros miséria,
é obra de deus
- do negro e do branco.
mas deus é branco,
o preto não tem!

Ruy Burity da Silva

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O meu amor é assim

saio dum ninho de alfombras
onde vive o baobá,
e vou buscar outras sombras,
vou buscá-las
onde as não há!



torno bendito o deserto
a transmitir suas mágoas!
sua virtude anda perto,
mas longe andam as águas!



e se esse longe distante
da selva nunca tem
fim,



no meu desejo constante
o meu amor
assim!



Maria Joana Couto

domingo, 21 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ode milenária

a angústia dos ramos do velho imbondeiro,
os costados abatidos da montanha.
o céu onde esvoaça o negro carniceiro,
são retratos de agora nesta terra estranha,
postais lendários, de gosto perturbante,
epitáfios de uma nova literatura
sabiamente abstrata e delirante.

uma febre alada de horrível formusura
contaminou a pátria ainda imperfeita.
vermes repugnantes de ventre parasita
gerados em antiquíssima maleita
que às vezes se acama
outras vezes se agita,
nadam cada vez mais afoitos,
pairam cada vez mais afeitos
ao pus que há séculos afecta
esta pátria de glórias e feitos,
esta nação febril e inquieta.

e tu meu irmão, que te chamas nandjala
porque nasceste num ano de fome inglória,
algures, em pleno século vinte,
diz-me qual foi o ano da fartura
dos últimos dois mil da nossa história!

acreditam alguns que o nosso irmão,
operário amarrado em laços de ignorância,
camponês prisioneiro do cepo da tradição,
poeta de olhos vendados por velhos nevoeiros,
está destinado ao pedestal da glória!
mas a glória dos mártires é martírio,
a glória dos heróis é génio,
a glória dos crentes é sagrada
e a glória do estado é um quinquénio
de economia mais ou menos frustada!

e como sempre,
penélope indigente,
bordando e desbordando em carne viva,
com a força obstinada duma ideia cativa,
a glória do nosso povo é uma nascente
que brota em polvorosa na ondjiva!

Henrique Abranches

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Desolação

tudo se foi por água abaixo
as enxurradas levaram os milhos,
os comerciantes fecharam a porta,
os contratados seguiram para s. Tomé,
as mulheres negras com os filhos pendentes das longas tetas magras

caminharam pelos desertos da vida,
com os olhos enxutos, sem lágrimas
viram morrer os filhos
caídos como os gados pelas pastagens áridas.
os cadáveres trouxeram epidemias.
morreu mais gente,
e todos morreram,
como se não morressem.
tudo se passou no silêncio amordaçado da selva.
agora
em desespero de virgem
violentada e infecunda,
grita a terra nua
a desolação da paisagem morta.

Alexandre Dáskalos

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Instante

o vento passou
beijando a magnólia do jardim.
docemente a beijou…

e vestida de rosa e roxo,
a magnólia sorriu, e ficou.
docemente sorriu…

o vento passou.
a magnólia floriu.

Alda Lara

domingo, 14 de agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Carta para Havana

sem lágrimas caídas
em lenço já molhado.
sem sonhos repartidos
no passado...

tarde de agosto
ao gosto
de quem ama.
saber falar baixinho
saber escutar quietinho
e deixar,
com alma de escuteiro,

derramar
por sobre o travesseiro,
rosas e rosas e rosas.
que importa que as rosas
tenham espinhos?...

Aires de Almeida Santos

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Malanjina

vou de camuflado vou imune
visitar a manjina
vou com a ciência dos amantes
não posso esperar
esperas criam cicatrizes
e eu já estou ingurgitado

ela engoliu-me a infância
cabe ainda no cheiro
procuro-a na sombra ou na pedra
onde quer que haja um lugar de leite

João Tala

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para Angola para o poema

escorrega-me da pena
e do ventre – minha grade
em que o gerei pelos cedros
dum zaire chorando barcos
para angola para o poema.

escorrega-me da vida
e meu amor que o levanta
dá-lhe passos dá-lhe abril
e do meu canto ele canta
para angola para o poema.

escorrega-me da morte
o verso de hoje e menino
verso-filho noutra sorte
verso-herança noutro ensino
para Angola para o poema.

Manuela de Abreu

domingo, 7 de agosto de 2011


Estátua da Liberdade, no Lubango

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poema universal

no coração de um negro
a dor é universal.

é a dor dos encurralados
nos slums de nova York
a dor que se faz ódio à solta
nas ruas de los angeles
a que não respeita bastões nem algemas
nem se fina nas celas de morte
é a dor à solta nos bairros do apartheid
a que não morre soterrada nas minas do rand
e vence quilómetros e quilómetros de arame farpado
é a dor da tortura
a que sobe das paredes frias de poulo-condor
do tarrafal
da ilha do governador
a dor que grita em coágulos de sangue
nos sexos das djamilas boupacha
uma dor igual que não conhece fronteiras
impelindo os homens à redenção

- uma dor universal

Jofre Rocha

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quissange, saudade branca

aquela melopeia triste de quissange
na noite negra angolana e doce
parou numa nota repentina.

não sei se parou a mão que tange
sei que parou e fosse como fosse
parou numa nota repentina.

ficou-me a angústia de um sonho inacabado
há muito, muito tempo na memória.
hoje a história traz-me o mesmo sentimento,
melodia interrompida de repente…

mas foi um toque desafinado de clarim
que veio anunciar o fim.

o pendão cansado de tantas batalhas
murchou como um trapo desbotado
e com ele se fizeram as mortalhas
dos sonhos frustres que tínhamos sonhado

Neves e Sousa

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sempre

estar calmo
como o mar angolano
antes das calemas traiçoeiras.

estar calmo
como as florestas angolanas
antes das queimadas?

estar calmo
como a manada de pacaças
antes do tiro do caçador.

estar calmo
como antes destes tempos
estávamos
antes dos tiros traiçoeiros
da morte espreitando nas bermas das estradas.

estar calmo
tranquilamente sentado à porta da minha casa
como quando era menino
antes do desastre

estar calmo
sempre calmo
aterradoramente calmo
subterrâneos de raiva fervendo no meu sangue.

Ernesto Lara Filho