sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poema da alienação

não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim

o meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no gesto e no ser

o meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
“uma limonje ma limonjééé”

o meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo
“carapau sardinha matona
Ji ferrera ji ferrerééé…”

o meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal trás ainda
o meu poema

o meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda
“amanhã anda a roda
Amanhã anda a roda”

o meu poema vem do musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa

o meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechada
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar

o meu poema é quitata
no musseque à porta caída duma cubata
“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”

o meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita
“obeçaite golo golo”

o meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
“monangambééé”

o meu poema anda decalco na rua

o meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando
“tué tué trr
arrimbuim puim puim”

o meu poema vai nas cordas
encontrou cipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado
“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé”

picareta que pesa
chicote que canta

o meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedir

o meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir
mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.

António Jacinto