domingo, 31 de julho de 2011

PEPETELA


(…)
“-Não disparem! – gritou Mundo Novo, correndo atrás dos fugitivos. Mas o Chefe de Operações, para assustar os trabalhadores, fez uma rajada para as folhas.
Milagre, voando sobre os troncos caídos, aproximou-se dum trabalhador. De repente, uma baixa e um regato. O trabalhador lançou-se de mergulho e foi rastejando sobre as pedras do rio pouco profundo. Milagre levava a bazuka e hesitou: gastaria um obus no ar para o travar? O trabalhador desapareceu nas curva do regato, rasgando o ventre nas pedras, e Milagre voltou para trás, trazendo como troféu a catana que caíra da cintura do homem.
Mundo Novo fez fogo para o ar e o trabalhador que perseguia parou, as pernas trementes. Era um rapaz. Com afeição, quase carinhosamente, Mundo Novo conduziu-o para o grupo dos três outros prisioneiros.
- Onde está o buldozer? – perguntou o Das Operações.
O mais velho dos trabalhadores apontou a direcção. Tinha uma perna torta. Deve ter sido uma árvore que lhe caiu em cima, pensou Mundo Novo.
- Leva-nos lá.
O grupo foi avançando para o sítio da picada, onde devia estar Sem Medo.
O silêncio da serra parando subitamente não interrompeu as reflexões do português, que se sentava ao volante do camião. Acendera mesmo um cigarro, segundo se pôde aperceber Sem Medo. Mas, quando a primeira rajada soou, o tuga acordou do torpor e tudo nele se pôs a vibrar. Sem querer saber o que se passava, pôs o camião em marcha a arrancou. A vinte metros dele, emboscados, os guerrilheiros visavam-no. Sem Medo viu que o branco suava e fazia caretas, acelerando.
- Não atirem! – gritou Sem Medo.
Lutamos ia protestar.
- Atirem só para as rodas!
Foi nesse momento que se ouviu a segunda rajada, feita por Mundo Novo, que se confundiu com a rajada de Lutamos.
(…)


Pepetela nasceu em Benguela, em 1941.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, adoptou na guerrilha o nome de Pepetela, pestana em quimbundo, que usa também como nome literário.

Licenciado em sociologia, foi-lhe atribuído, em 1997, o Prémio Camões.