domingo, 17 de julho de 2011

MANUEL PEDRO PACAVIRA



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Uma enorme sala o gabinete de trabalho do Chefe. Pintadas de branco, ostentam as paredes uma quantidade de fotografias de “altas individualidades” – e uma carta da geografia político-administrativa da Vila.
O chão rasgado, remendado e muito encardido, com nódoas de sangue. Duas janelas se abrem para a rua. Por móveis: dois polidos armários empilhados de livros – e duas secretárias de metal que assentam sobre dois velhos e rotos tapetes. A outra secretária é a do sr. aspirante – em cima da qual se vê uma colossa palmatória de madeira cheia de furinhos, e um chicote de cavalo-marinho, ao alto, pendurado na parede. A um outro canto, frente a frente ao lugar do Aspirante: a secretária do Chefe.
Assentaram.
Conversa. Mas só o velho colono fala – “a propósito da maca do Zanobe e o genro”.
Faz o Chefe de estar a examinar uns papéis que lhe pejam a secretária. Diz o sr. Albano: - “Deveras delicado o caso do Zanobe e o genro. Uma maca dos diabos a exigir ponderada solução. Sem coração. A cabeça acima de tudo. Para não se deixar levar por considerações de ordem tradicional. E convinha. Tanto que já corriam uns zunzuns de estarem alguns comerciantes da vila a preparar um abaixo-assinado ao Governador-Geral contra o Chefe”.
Meio-dia. Muda o tempo de aspecto. Grandes lufadas de vento lá fora. O tecto treme. Num bater constante as janelas – de cá para lá, de lá para cá: pá! pá! pá! pum!... Uma ventania maluca. Ruge. Sacode as árvores: chapas de zinco e folhas e ramadas.
(…)






Manuel Pedro Pacavira nasceu em 1939 no Golungo Alto. Nacionalista foi preso pela PIDE por várias vezes. Esteve também deportado em Cabo Verde.
Desempenhou várias funções no governo, entre as quais a de ministro da Agricultura, entre 1978 e 1980.
“Gentes do Mato” é o seu primeiro livro, publicado em 1974.