domingo, 10 de julho de 2011

CASTRO SOROMENHO


(…)
Longe, fora da vila, planície em fora, os negros contratados levantaram o seu canto triste ao céu sem sol, as primeiras sombras da noite a descerem sobre Camaxilo e as fogueiras das senzalas a abrirem-se em labaredas.
Vasconcelos e Américo, a caminho da povoação-de-baixo, ouviram o canto triste e distante. As vozes perdiam-se ao longe quando eles chegaram à ponte, cruzando-se com o sipaio Canivete e um grupo de mulheres, quase todas com os filhos bifurcados nas ancas, e dois velhos sobas embrulhados em cobertores de papa, amparados a lanças de cabos mais altos do que eles.
- Que gente é essa? – perguntou Vasconcelos.
- É muié dos home fugiu. Tem soba – e o sipaio apontou para os dois velhos.
E continuaram o seu caminho.
No largo da Administração, o sipaio bateu com a coronha da espingarda no chão e perfilou-se em frente do secretário, que estava deitado numa cadeira de lona, na varanda da sua casa.
- Que é? – perguntou Jaime Silva, levantando-se. – São as mulheres dos homens que fugiram?
- Sim, siô, nosso secretário.
Silva pôs-se a olhar para as mulheres, uma por uma. Ao verem o branco, os negritos romperam a chorar, muito agarrados às mães, mas elas de pronto afundaram-lhes a cara nos seios caídos, calando-os. Uma velha riu-se mostrando a boca desdentada, mas o sipaio mandou-a calar.
Estavam cansadas de três dias de viagem. No grupo destacava-se uma rapariga, só com o sexo tapado por um pedaço de pano, que logo chamou a atenção do Silva.
Os olhos humedeceram-se-lhe e brilharam ao contemplar-lhe os seios rijos e as ancas largas. Surpreendida, a rapariga baixou os olhos. A companheira que estava ao lado, com uma grande barriga de prenhez, disse-lhe qualquer coisa em voz baixa que a fez levar a mão à boca para o silva a não ver rir.
- Põe essa gente na prisão – ordenou o secretário.
(…)

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