domingo, 3 de julho de 2011

ALFREDO TRONI


(…)
“O choro foi grande, mas interrompeu-se algumas vezes para comerem. Entretanto, às seis da tarde, ao cantar do galo e às seis da manhã redobrava. Havia uma velha que avisava as outras para chorarem. Havia aguardente e uma botija de genebra Focking, marca escolhida por conselho de um rapaz amanuense da Junta, que tratava com a tal rapariga dos apalpões do escriturário.
O vizinho, o testamenteiro, disse que sim, que se fizesse a esteira, mas que não fizessem muita bulha, e sobretudo que não deixassem entrar toda a gente – e sublinhava com a voz a palavra.
A Chica veio também, mas demorou-se pouco.
Aos oito dias houve a missa mandada dizer pelo testamenteiro, que convidou todas as pessoas das relações de seu falecido e chorado amigo, dizia o anúncio. Foi publicado no Boletim Oficial, com uma grande tarja preta e um anjo a chorar abraçado a uma cruz. Tudo muito bonito – contou um rapaz que tinha suas vistas na Nga Muturi, e encarecia as pompas do óbito.
Nga Muturi estava na missa, muito grave, com os competentes panos de zuarte azul escuro, o seu pano preto e um gorro, segundo o costume; estavam todas as amigas e muita mais gente. Estavam também muitos brancos, amigos do testamenteiro, e alguns empregados. Não faltou o juiz. Tinha-lhe custado muito a levantar-se, mas era da terra do falecido, e parecia mal se não fosse.
(…)




Alfredo Troni nasceu em Coimbra, onde se formou em direito, em 1845 e morreu em Luanda em 1904.