quarta-feira, 29 de junho de 2011

No ventre da terra é que sou nascida...

na terra que me não consente,
sou terra negra e quente...

infiltrei-me no abismo fundo, 
dilatei-me. desatei os braços
em raízes finas
e ganhei espaços
que perdi no mundo...

sobre mim há folhas secas
dispersando pó 
no baile do outono
e há a paz da noite
num olhar de sono...

sobre mim há regatos verdes
a cabriolar.
rebanhos a tilintar
pastagens e liberdades.
pastores a sofrer poemas
e saudades...

sobre mim há suor humano
e cansaços ao lusco-fusco
e mãos calejadas
que me revolvem o ventre
num desespero brusco...

sobre mim há a esperança
e a revolta dos homens:
lutas, sangue, pus e podridão...
é sobre mim que o homem ajoelha e pensa.
e é em mim que procura o pão...

trajectória breve
teve a minha vida:
de um ventre para outro ventre...
no ventre da terra é que eu sou nascida!

Amélia Veiga

Sem comentários: