sexta-feira, 17 de junho de 2011

Encruzilhada III

e havia tambores dançantes no teu sangue
aquele ar coleante
de brilho apagado no teu olhar
ou o segredo das noites
guardado nas mãos dos olhos velhos
havia a interpretação
da mística das florestas
nos sons nocturnos
assim a alongar-se para o infinito
foi assim
na mímica do teu olhar
voltado para o nascer do sol
quando tudo se transforma em sangue
nos raios secos-vivificadores
e a terra abre gretas para glosar
em seu colo úbero o alento cálido
dos bafos quentes do dia
deixaste solto teu grito
abalando o sono dos séculos
em seu retiro austero e longo

e foi assim
nova era anunciada no rodar
dolente dos sabores eólicos
partindo do recavo ebúrneo do tempo
e havia revolta no teu gesto
resgatando o ancestral fatalismo
a impores teu lugar no universo
e foi assim
tragédia e sangue derramado
nos raios do novo dia nascente
e foi assim irmão
foi assim

agora o oscilar entre dois mundos
embriagando o tédio
olhos rolando prantos
duma dor presente neste tempo
e outra dor antiga a vozear
dos séculos de silêncio

foi assim certeza e angústia
com a exactidão dos vencidos
antevendo as formas sem destino
foi assim mãe
foi assim irmão
foi assim amada
foi assim todos
digam
foi assim

Ruy Burity da Silva