quarta-feira, 29 de junho de 2011

No ventre da terra é que sou nascida...

na terra que me não consente,
sou terra negra e quente...

infiltrei-me no abismo fundo, 
dilatei-me. desatei os braços
em raízes finas
e ganhei espaços
que perdi no mundo...

sobre mim há folhas secas
dispersando pó 
no baile do outono
e há a paz da noite
num olhar de sono...

sobre mim há regatos verdes
a cabriolar.
rebanhos a tilintar
pastagens e liberdades.
pastores a sofrer poemas
e saudades...

sobre mim há suor humano
e cansaços ao lusco-fusco
e mãos calejadas
que me revolvem o ventre
num desespero brusco...

sobre mim há a esperança
e a revolta dos homens:
lutas, sangue, pus e podridão...
é sobre mim que o homem ajoelha e pensa.
e é em mim que procura o pão...

trajectória breve
teve a minha vida:
de um ventre para outro ventre...
no ventre da terra é que eu sou nascida!

Amélia Veiga

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jangos

o amálgama
de acusações
dos ramos secos
das mulembas

e sombras onde as sombras
foram luz...
receios mudos
apagados
diluídos
nas paredes tortuosas
das cubatas

...nos corações há vidas
de mortes que foram vidas
ecos de caminhos
e segredos
desfeitos no encontro
com as vozes das sanzalas

...um fogo de queimada
transmitido
em cada gesto
do fumo
dos cachimbos
e pausas graves na noite

as noites as noites longas
são marcas
contando o tempo e a idade


Costa Andrade

domingo, 26 de junho de 2011

ANTÓNIO DE ASSIS JÚNIOR


(…)
Na cubata de Catarina, a muturi escolhida, reuniu-se o óbito com a assistência e choros dos demais escravos. Para lá mandava D. Clara garrafas de vinho, de aguardente e iguarias para as viúvas e suas companheiras, pois a alma da cobra recomendara “não faltar nada”, e Catarina nenhum preceito olvidava – não fosse ela, do outro mundo, fulminá-la também…
No sétimo dia teve lugar o sangu, que em outro lugar já explicámos, para todos os que fizeram parte do óbito, e no oitavo a “comida da noite”: guisados e assados de carnes de porco, carneiro, galinhas, vinhos, licores, doces, etc., que se dá ao espírito da pessoa morta à meia-noite.
Esta cerimónia é a mais delicada nestes casos, em que a alma do morto comparece no local com os seus amigos e parentes. Preparada a ceia, colocam-se, ao ar livre e em lugar não acessível a todos, sobre uma mesa coberta de uma toalha muito branca, com copos, pratos e talheres, as viandas e licores, tudo compatível com a categoria ou grau de educação do falecido ou do que faz a cerimónia, na qual intervém, em geral, uma velha a que chamaríamos “mestra de cerimónias”, que dirige, compõe e harmoniza as duas partes; os que já foram e os que ainda cá andam. É uma cobra? Não: é uma alma a sufragar. Aí, tudo, comidas e bebidas, permanece descoberto, como que abandonado, por espaço de meia ou uma hora. Os restos, que se crêem sem nenhum sabor, são, pela pessoa mais velha ou pela encarregada da cerimónia, enterrados, como o fora o corpo do invocado, para que “viva por lá, no outro mundo, em paz e em sossego, e não venha ou tente perturbar os que cá ficaram”. E no dia seguinte, de manhã, é mandada celebrar pela muturi uma missa na igreja, ou simples responso, sufragando a alma do defunto, para que entre na eterna bem-aventurança.
(...)



António de Assis Júnior  nasceu no Golungo Alto em 1877 e faleceu em Lisboa (no  exílio) em 1960, depois de um vida marcada por prisões, residências fixas, desterros.
É, no campo literário, o último grande representante de uma época que teve o seu início por meados do século XIX, após a abolição da escravatura, e que conheceria o seu fim pelos anos 20 do século XX, na época dos governos dos altos-comissários.
Deixou-nos ainda uma Gramática de Kimbundu-Português e o Relato dos Acontecimentos de Dala Tando e Lucala.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Beijos

Para Dinah


O meu corpo anda caiado de luz
pelo carinho de beijos luzidios
dos teus lábios fogo carmesim
incendiado a labaredas e lírios.


O meu corpo anda caiado de luz
como se fosse um templo imaculado
onde guardo as pétalas dos teus lábios
fogo bendito carnal e sagrado...

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pela calçada da Maria da Fonte

pela calçada da maria da fonte
manhã cedo, muito cedo,
a caminho da baixa,
desce um formigueiro…… de povo.
é um rio novo que avança;
rostos duros, olhos mortiços,
deixaram ficar no musseque
as histórias da noite que dura.

pela calçada da maria da fonte
seis e meia. os sonhos regressam
com a noite que desce. pelos caminhos
há olhares, promessa de beijos
e ritmos quentes a transbordar…
rostos duros, olhos de álcool
lentamente o formigueiro…… de povo
desagua musseque fora.
pela calçada da maria da fonte
o povo desce, caminha, rumureja,
lembra por ora um mar tranquilo
a vencer distâncias……

António Cardoso

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vinhas só

vinhas só,
o olhar poeirento
e um oásis de esperança
nas mãos desertas.

vinhas só
as carnes acesas em sangue,
os cabelos de sombra estendidos
pela terra imensa mordida de dor;
e na areia solta dos teus pés
eu vi as raízes de áfrica.

chegaste
com passos velhos de ecos
que soaram
batuque e conquista
nas noites tumultuosas da impis.

chegaste
e cresceste em mim
no grito dos tempos.
descansa à sombra da minha vontade,
mãe,
eu continuarei a jornada

Manuel dos Santos Lima

domingo, 19 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Encruzilhada III

e havia tambores dançantes no teu sangue
aquele ar coleante
de brilho apagado no teu olhar
ou o segredo das noites
guardado nas mãos dos olhos velhos
havia a interpretação
da mística das florestas
nos sons nocturnos
assim a alongar-se para o infinito
foi assim
na mímica do teu olhar
voltado para o nascer do sol
quando tudo se transforma em sangue
nos raios secos-vivificadores
e a terra abre gretas para glosar
em seu colo úbero o alento cálido
dos bafos quentes do dia
deixaste solto teu grito
abalando o sono dos séculos
em seu retiro austero e longo

e foi assim
nova era anunciada no rodar
dolente dos sabores eólicos
partindo do recavo ebúrneo do tempo
e havia revolta no teu gesto
resgatando o ancestral fatalismo
a impores teu lugar no universo
e foi assim
tragédia e sangue derramado
nos raios do novo dia nascente
e foi assim irmão
foi assim

agora o oscilar entre dois mundos
embriagando o tédio
olhos rolando prantos
duma dor presente neste tempo
e outra dor antiga a vozear
dos séculos de silêncio

foi assim certeza e angústia
com a exactidão dos vencidos
antevendo as formas sem destino
foi assim mãe
foi assim irmão
foi assim amada
foi assim todos
digam
foi assim

Ruy Burity da Silva

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vozes no silêncio

longos desertos
planos incertos,
perdem-se os olhos
na escuridão!

e pelo espaço
voam suspensas
vozes perdidas
na solidão

Maria Joana Couto

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Reportagem

já floriram de novo acácias e olaias!
mais uma primavera...
mais um encanto novo a iludir os tristes!

nos paseios para cá e para lá,
as pessoas passam
enroupadas já de primavera...
eles vão de fato claro,
elas com flores estampadas nos vestidos.

as gotas de água dos repuxos e relvados
são diamantes batidos pelo sol
claro, suave, embalador
desta primavera,
da primavera eterna
que vai da natureza aos fatos dos que passam...

mas quando, para quando
a primavera da vida emancipada!
para quando a primavera fecundada
pelo choro das crianças sem pão,
pelo grito das mulheres envilevidas
pelo estertor dos homens com ganhos de meio tostão...
pelo sangue dos que erguem a flama do seu anseio
e são mortos no caminho...

ah! quando a verdadeira primavera da vida!
rosa escarlate aberta na escuridão,
canto de plena certeza,
infância deslumbrada a pregar no firmamento
as estrelas de amor acesas por nossas mãos...

para quando, para quando?

e os que passam vestidos de primavera
sentirão a dor desta pergunta?

nos passeios
a multidão desliza para cá e para lá
vestida de primavera,
nos seus fatos claros...
e as árvores, essas,
rescendem ataviadas de flores...

sim, mais uma primavera
na natureza e nos fatos dos que passam...


Lília da Fonseca

domingo, 12 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vendedeira de ananases

quitandeira de ananases
eu gosto dos teus olhos
quando me fitas assim
tímida e suplicante
e expiar crimes
sofrendo por ter sofrido.

gosto dos teus olhos
que me segregam o tudo está consumado
do teu calvário
e me indicam
o caminho do ressurgimento.

gosto dos teus olhos
vendedeira de ananases
dos teus olhos nostálgicos
onde leio
as mágoas duma multidão.

gosto dos teus olhos
onde passeiam pensamentos distantes
ilusões perdidas
dias ainda não vividos
mas pressentidos.

gosto dos teus olhos
dirigidos para séculos idos
embebendo no perfume
do ananás
a esperança no alvorecer.

olha-me quitandeira de ananases
eu quero descobrir a vida.

Agostinho Neto

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Carta

jesus Cristo, jesus Cristo
jesus Cristo, meu irmão
sou fio dos pais da terra
tenho corpo pr’a sofrer
boca para gritar
e comer o que comer
os meus pés que vão
no chão
minhas mãos são de trabalho
em coisas que eu não sei
e não tenho nem apalpo
trabalho que fica feito
para o branco me dizer
“obra de preto sem jeito”
e minha cubata ficou
aberta à chuva e ao vento
vivo ali tão nu e pobre
magrinho como o pirão
meus fios saltam na rua
joga o rapa sai ladrão
preto ladrão sem imposto
leva porrada nas mãos
vai na rusga trabalhar
se é da terra vai para o mar
larga a lavra deixa os bois
morre os bois… e depois?
se é caçador de palanca
se é caçador de leão
isso não faz mal nenhum
lança as redes no mar
não sai leão sai atum…
jesus Cristo jesus Cristo
jesus Cristo meu irmão
sou fio dos pais da terra
um pouco de coração
de coração e perdão
jesus Cristo meu irmão

Alexandre Dáskalos