sexta-feira, 20 de maio de 2011

Nzambi Yange

datam ainda na memória da esperança
as asas senhoris do pássaro fecundo
que sobrevoou meu sonho de criança,
antes que o sonho, gasto pelo mundo,
fosse ganhando uma imagem frouxa.

pássaro negro de pesada sombra
sentado num chapéu dum deus imundo,
pousado na cabeça dum boi mocho.
pássaro negro criador da penumbra
que desde a minha infância me conduz
o meu braço de ferro e o meu andar de coxo!
mancha inquieta que escamoteia a luz
do caminho obstinado desta esperança
com que o meu sonho em geral se veste.

oh! quantas saudades dispersas pelo mundo,
duma outra angola até à velha frança!
de terra em terra como um longo teste!

companheiro do meu tempo de criança
de antes do pássaro da fecundidade
de quando eu era menino e tu precoce,
de quando eu chorava desgostos absurdos
e o que tu sofrias me parecia doce.
onde parou essa conversa de surdos
com que iniciamos a nossa amizade?

companheiro das minhas epopeias,
ulisses desta barca assombrada,
em que tu e eu, sem temores nem peias,
navegamos do exílio à luta armada.
onde se afundou a barca carregada
do que havia de comum nas nossas ideias?

olha para mim! não me reconheces?
eu sou aquele a quem tu ensinaste
que uma angola nova não se faz com preces!
eu sou aquele de quem tu aprendeste,
que a miséria do povo é um estandarte
desfraldado na varanda do mundo!
eu sou aquele que não quer abandonar-te,
buda solitário de olhar frouxo,
sob as asas do pássaro fecundo,
pousado na cabeça do boi mocho...

Henrique Abranches