quarta-feira, 25 de maio de 2011

Aprendizagem

As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
Paulinho da Viola


eu, a medida de todas as coisas?
as coisas estão no mundo
e todos os dias me espanto com elas.
espanta-me o grito profundo
dos violentos pássaros matutinos.
a pedra inerte
no meio do caminho
ou servindo de aríete
nas mãos do indignado estudante coreano
espanta-me.
maior mistério não há
do que a cruel sucessão das estações.,
ano após ano.
assustam-me os sons
ecléticos do quotidiano:
buzinas, choros, canções.
igualmente: o áspero açoite
do vento nas árvores
fragilizadas.
como um insecto cego e iludido,
sou atraído pelo fascínio da noite.
o oceano emociona-me,
assim como as rimas pobres:
amor e flor,
coração e paixão,
por exemplo.
odeio injustiças, mas cometo-as,
fingindo desconhecimento.
eis a minha única certeza:
tarde ou cedo,
serei triturado pelo velho moinho de morte,
cujas velas reinam, obscenas,
sobre todo o azar
ou sorte.
mas estou vivo
e estou no mundo.
ignorante e sábio,
doce e agressivo,
cobarde e capaz
de descobrir a coragem
no fundo do medo,
ingénuo e cínico,
em incessante aprendizagem:
eu, a medida de todas as coisas.

João Melo

Sem comentários: