segunda-feira, 30 de maio de 2011

Noite

noites africanas langorosas,
esbatidas em luares…,
perdidas em mistérios…
há cantos de tungurúluas pelos ares!...

noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros…

noites africanas tenebrosas…,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos…

e os meninos brancos cresceram
e esqueceram
as histórias…

por isso as noites são tristes…
endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes… como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas…
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas…

é que os meninos brancos…
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas…

os meninos brancos… esqueceram!...

Alda Lara

domingo, 29 de maio de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Psiquiatria I

reverbero de minha esquizofrenia
dias de mim cuidados
atravessei o hospital psiquiátrico
ninguém mais mora lá;
os doutores partiram quando o tempo envelheceu
e o princípio pariu o fim – uma estrada
onde passo com o livro descuidado,
sem brio, um tratado de loucura.
é o tempo abordado e paginado
com o sangue na caneta;
o tema das cicatrizes que não foram encontradas
porque a enfermeira as escondeu
quando forjava a própria madrugada

João Tala

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Aprendizagem

As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
Paulinho da Viola


eu, a medida de todas as coisas?
as coisas estão no mundo
e todos os dias me espanto com elas.
espanta-me o grito profundo
dos violentos pássaros matutinos.
a pedra inerte
no meio do caminho
ou servindo de aríete
nas mãos do indignado estudante coreano
espanta-me.
maior mistério não há
do que a cruel sucessão das estações.,
ano após ano.
assustam-me os sons
ecléticos do quotidiano:
buzinas, choros, canções.
igualmente: o áspero açoite
do vento nas árvores
fragilizadas.
como um insecto cego e iludido,
sou atraído pelo fascínio da noite.
o oceano emociona-me,
assim como as rimas pobres:
amor e flor,
coração e paixão,
por exemplo.
odeio injustiças, mas cometo-as,
fingindo desconhecimento.
eis a minha única certeza:
tarde ou cedo,
serei triturado pelo velho moinho de morte,
cujas velas reinam, obscenas,
sobre todo o azar
ou sorte.
mas estou vivo
e estou no mundo.
ignorante e sábio,
doce e agressivo,
cobarde e capaz
de descobrir a coragem
no fundo do medo,
ingénuo e cínico,
em incessante aprendizagem:
eu, a medida de todas as coisas.

João Melo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Chão

palavras para manoel de barros


apetece-me dês-ser-me;
retribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas garganta dentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão, muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.

Ondjaki

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Nzambi Yange

datam ainda na memória da esperança
as asas senhoris do pássaro fecundo
que sobrevoou meu sonho de criança,
antes que o sonho, gasto pelo mundo,
fosse ganhando uma imagem frouxa.

pássaro negro de pesada sombra
sentado num chapéu dum deus imundo,
pousado na cabeça dum boi mocho.
pássaro negro criador da penumbra
que desde a minha infância me conduz
o meu braço de ferro e o meu andar de coxo!
mancha inquieta que escamoteia a luz
do caminho obstinado desta esperança
com que o meu sonho em geral se veste.

oh! quantas saudades dispersas pelo mundo,
duma outra angola até à velha frança!
de terra em terra como um longo teste!

companheiro do meu tempo de criança
de antes do pássaro da fecundidade
de quando eu era menino e tu precoce,
de quando eu chorava desgostos absurdos
e o que tu sofrias me parecia doce.
onde parou essa conversa de surdos
com que iniciamos a nossa amizade?

companheiro das minhas epopeias,
ulisses desta barca assombrada,
em que tu e eu, sem temores nem peias,
navegamos do exílio à luta armada.
onde se afundou a barca carregada
do que havia de comum nas nossas ideias?

olha para mim! não me reconheces?
eu sou aquele a quem tu ensinaste
que uma angola nova não se faz com preces!
eu sou aquele de quem tu aprendeste,
que a miséria do povo é um estandarte
desfraldado na varanda do mundo!
eu sou aquele que não quer abandonar-te,
buda solitário de olhar frouxo,
sob as asas do pássaro fecundo,
pousado na cabeça do boi mocho...

Henrique Abranches

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pôr-de-sol

em meu chão de sangue vamos
e com áfrica no sol
choramos
aquele adeus que nos foge.

em meu sol de sangue vamos
e com África nos olhos
choramos
a cinza dos lenços de hoje.

Manuela de Abreu

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Poema

escorre o punhal
na esteira
para a combustão
do procriar

rio de ventre sem água

Samuel de Sousa

domingo, 15 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Oh princesa sem outra terra

oh princesa sem outra terra
que aquela
que o guerreiro traz em sua mão
muêne-pembe
morreu rindo
atirando de joelho no chão
cada dente uma bala
e cada bala um sonho sem ilusão
atirando morreu
muêne-pembe
rindo de joelho no chão
cada dente uma bala
e cada bala um sonho sem ilusão
oh princesa sem outra terra
que aquela
que o guerreiro traz em sua mão

Arlindo Barbeitos

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Diogo Cão às portas do Zaire

deste lado da história
o rio morre aqui.
do mar sabemos nós e aos capitães
a fama da conquista.

faço-me ao sul
porque pertenço ao norte
e a costa só me serve p’ra cumprir
tarefa de abandono.

meu fim é circular, ir mais além.
por isso eu sei de estrelas
direcções
e nada sei do fruto
que se projecta e espera.

cumpro tarefas sim, porque viajo.
assim nasci
sabendo o que me aguarda após a descoberta.
fronteiras
só conheço as do meu lar
e sei amá-lo, só,
noutras distâncias.

de deus, empreendi que mora aqui no mar,
porque sou eu
quem lhe constrói a face.

ao rei e a vós
apenas dou notícia do rumo horizontal.

pois que sabeis da vertical sagueza?

Ruy Duarte de Carvalho

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Flora & fauna

flor de nojo que em noite pasmada
o mestre-escola desfolha
e o verme invisível rói,
sejam tuas pétalas o sudário
para quem a morte avilta
e a poesia não ousa.

és flor de nojo, poesia e ventre,
(infecundo não importa!) e à tua volta
restos, ranço, rastos;
esterco, livros por abrir;
cacos, penas de asas...
("tlavez de anjo..." murmura o literato),
e à tua volta, vozes de poetas,
em coro, no charco, soletram,
plácidos, pelintras, pálidos.

flor de nojo, que em noite pasmada,
se dá, prudente - tão maliciosa!,
a quem a escarnece e teme,
vingue-se em ti, ao menos, ninguém:
que a vingança é só de quem
o sorriso não reclama.

Tomaz Kim

domingo, 8 de maio de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Poema

o cheiro morno da terra
nos embriaga.
há olhos de pão
nas searas mais verdes

e o suor dos que se erguerem
voltados para o sol
frutificará
num cântico de paz.

o orvalho não tarda.

na terra,
um sorriso adormece.

Jofre Rocha

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vadiagem

naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear às loucuras
com os rapazes das ilhas:
uma viola a tocar
o chico a cantar
(que bem que canta o chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes

vieram também, vieram também
cheirando a flor do mato
- cheiro grávido de terra fértil –
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a bebiana, a teresa, a carminda, a maria.

uma viola a tocar
o chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor do mato
a maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
e eu a querer, a querer a maria
e ela sem se dar

vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da boavista
o mar ronronante a nos incitar
todos cantando certezas
a maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bêbadas de liberdade
a maria se chegando
a maria se entregando

uma vida a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor…

António Jacinto

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Kalundu

ouves o vento a gemer,
no meio do mato, à noite,
sentes o vento a correr,
cada vez mais agitado?
zuu… zuu… zuu…
o vento tem kalundu…

ouves a leoa rugindo,
com ciúmes do leão,
com apetites de fera,
ouves a leoa bramindo?
uuu… uuu… uuu…
a leoa tem kalundu…

não vês o mar trovejando,
ameaçador, furibundo,
como se nele existissem,
enraivadas,
todas almas do outro mundo?...
não vês o mar rebramando?
uuuu… uuuu… uuuu…
o mar tem kalundu…

não vês o fogo incendiando
as libatas, as anzalas,
as lavras, tudo arrasando?
não vês o fogo, o demónio,
que é o próprio belzebu
em forma de labareda?
o fogo tem kalundu…

não vês o sol, ao meio-dia,
quando é mais forte o verão,
quando o calor é mais forte,
o sol escaldando o chão,
dando febre a todas coisas,
- o sol que é fogo do inferno
além da vida e da morte?
o sol tem kalundu…
como tu!

- mas tu és mais do que o vento,
mais que a leoa, que o mar,
mais do que o sol e que o fogo,
quando está a batucar…

não há sol que queime tanto,
fogo que incendeie tanto,
como o teu olhar me queima,
me incendeia, o teu olhar,
que até me deixa em quebranto…

não há vaga, não há mar,
que ondeie tanto e requebre
como o teu corpo selvagem,
que é mais ligeiro que a lebre
e se torce mais que a cobra,
em fantástica manobra,
e mexe-se mais que o vento,
- teu corpo, forma de vento,
que baila e que faz bailar…

e as garras com que me prendes,
e em que me deixo prender,
não as possui a leoa;
porque o teu jugo não mata,
nem magoa,
mas dá vida e dá prazer!

quando tu danças cantando,
cantando e dançando assim,
batucando, batucando,
e a noite se faz mais negra
e o batuque não tem fim,
o teu corpo quase voando,
belo, sensual, ardente,
o teu dorso semi-nú…
… parece que a vida és tu!
e tu, e eu, toda a gente
à roda do teu batuque,
e tudo quanto nos cerca,
- tudo tem kalundu…

Geraldo Bessa Victor