sexta-feira, 29 de abril de 2011

Uma canção da primavera

nesta flor sem fruto que aspiramos
eu vejo coisas que ninguém descobre:
descubro o grão, o caule, os ramos,
e até o sulfato de cobre.

e ainda vejo o que ninguém mais vê:
vejo a flor a desenhar-se em fruto.
e quer ela o dê, quer não dê,
é esse o fim por que luto.

Antero Abreu

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Quem

quem põe o mar
no coração
essa calema

e quem lhe tira a espuma
de ilusão
para o poema
de fazer da bruma
uma canção

já sem calema

quem alegria mais
o som da vida surda
e por saber demais
alguma areia muda
abraça o sem fim
que vai na rua
a violar de amor
a esperança nua.

Manuel Rui

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Recordação

Um velho ardina

lagoa dormindo
e a canção na noite…

- uola mono, uola tala
- uola mono, uola tala, uola mono…

canção do fatal passando
na rua fechada do cemitério velho

e o vento trazia fios de risadas
um novelo oculto de assombrações e medos
na noite ondeante do meu além caído.

e tudo eram sombras, véus silentes!

e eu, menino
não via a tua mão pendente
definhada torção da sorte
balançando ao ritmo do teu canto…

- uola mono, uola tala,
- uola mono, uola mono…

hoje sei que as sereias da lagoa
te uniam ao luto enorme que choravam
de um povo inteiro sepultado.

Arnaldo Santos

domingo, 24 de abril de 2011

Grupo de dança e cantares tchokwe

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vamos cantar nosso canto

vamos gongorilar nosso canto descontinentado
verde kandando
de reviver

áfrica em nosso rosto

e

coa liberdade se espraiando
azul estendida
na grande dizanga de festejar

vamos reabitar nossa alma

Jorge Macedo

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Dominga

que menino tão gordo…
E pesado…
que menino tão bom!
lhe dá o peito?
o leite secou: lhe dá biberon.
dominga lhe pega
e a gente não sabe se é ela que pega,
ou se é o menino que traz ela ao colo.
a mãe nunca pega: é muito pesado.
e a mãe é tão gorda…
é gorda na frente
e é gorda detrás, no fundo das costas…
se sente do clima:
acorda vem cedo e toma aspirina.
- dominga! Me traz o meu matabicho!
e come tão pouco…
é pão e manteiga e leite e café
e às vezes é compota por cima do pão.
depois ela almoça.
- dominga! me abriu essa cama?
lhe dá chapada:
a negra não presta
e a pobre senhora, se encosta um bocado na hora da sesta
depois ela acorda.
as outras amigas já veio pró chá.
- que terra, meu deus!
- que clima!
- e os negros? não fala, me quebra a cabeça!
- que tropa!
depois elas fala, os maridos já disse,
que vão descansar seis meses na Europa.
- dominga esses bolo!
- dominga, o menino, lhe pega ao colo!
- dominga!!!
o menino mijou:
- dominga,uma fralda,
me limpa esse chão!
o menino borrou:
- dominga, uma fralda,
me limpa esse chão!
o menino, coitado. Berrou, vomitou:
- dominga, traz água,
me lava o menino
me limpa esse chão!

Cochat Osório

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Saudação

se não voltar,
não hesites: é distância.
se não sorrir,
não sofras: é lembrança.

alongo-me na música
das canções sem sons
dizendo em melodia
chorar alegria e dor

se mundo sofrer
não lamentes: é alegria.
se só gritar e rir,
beija-me: é solidão.

isola-me o pensamento
no desencontro do quotidiano
apelo ancestral lançado
no despertar telúrico do lago

tão sempre só…
tão tragicamente só…


Ruy Burity da Silva (1940)

Nasceu no Lobito. Em 1964 veio para Lisboa como funcionário dos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola e dedicou-se ao estudo etnográfico do grupo étnico dos Quiocos (Tchokwe).
Realizou conferências de carácter literário e tem colaboração em “Planalto”, “A Província de Angola”, “Jornal do Comércio”.

domingo, 17 de abril de 2011


No nordeste de Angola, a etnia lunda-tchokwé usa o cesto de adivinhação, chamado de ngombo, do qual o sacerdote adivinhador retira pequenas figuras esculpidas em madeira, as quais irão determinar a sorte do consulente.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pedaço de pirão

minha flor de gretar nos dedos
de gretar na boca, a semente, a margem
quente do sangue
e de longe e de longe
o rictus, a lâmina descida
sobre.

minha flor minha flor de querer-te
a terra, a delida face
da fome

pedaço de pirão, bocado de
lume
na voz.

minha flor de ser
gota
suor, de ser líquida e mar.

David Mestre

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Buzi

tu eras bela e virgem
e eras tão pura
como se fosses a mais linda estrela
do céu quando a noite é mais escura.

tu eras a namorada
daquele que por ti chora,
longe, muito longe,
e ainda te namora
quando, à noite, olhando o céu
te procura e reconhece.

- e fica sempre a olhar-te
até que a noite amanhece.

é por ele que tu vives,
é por ele que tu morres,
é por ele que tu sofres
- buzi…

pobre buzi, levaram-te no branco…
foi um presente macabro,
foi um presente sem futuro…

e agora, nessa avenida,
espreitando a mentira da cidade,
está chorando seu amor ausente
a triste e pobre buzi desterrada,
e tão doente,
sempre a pedir que lhe dêem cura,
ou a morte;
- porque a morte é a distância
que um grande amor aproxima.

buzi, ó flor do songo,
para males da muxima
kimbanda não tem milongo!

Tomaz Vieira da Cruz

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poema

as grandes queimadas africanas
transumância ancestral
no algo desprestigiante
das pinturas sem cor
recordam os ngangas intranquilos
(olupulo luombila)
nos anos de não-chuva.

é sempre na lua de cacuênhe
que o ngombe das cores sagradas
sai para o grande cortejo:
a ondjélua do povo!
assim também nascerá
todos os anos,
da terra queimada
o chóli novo.

não mais andarão as tchitucas
no seu vai-vem espectral
põe entre os eumbos,
lançando a maldição da ndjála.
os nombuále pensarão
não vir ainda dessa vez
a chamada de huco.

nas grandes queimadas africanas
o sorrir vermelho-fogo
o olhar negro-fumo
de todos os bois
em todos os vilongo,
as monas mais queridas de calunga!

na sua satisfação
a satisfação dos homens.
(o capim será tenro de novo!)

Jorge Arrimar










domingo, 10 de abril de 2011

Tambor tchokwe

Umas das mais importantes formas de arte em África, os tambores são, além de um instrumento musical, uma obra escultórica com referèncias à História e à Cultura,

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Levantamento

há-de morrer o tempo
de dar diamantes.

quem os quiser
que os procure
com os próprios olhos
que os desenterre
com as próprias mãos.

contratado!
ergue-te
e põe nos olhos
todo o brilho
dos diamantes
que deste.

Tomaz Jorge

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Damba Maria

aquela canção
que o vento nos ensinou
findou
e não a cantámos juntos.

perdeu-se
na ocasião
em que uma onda invejosa
veio cobrir com espuma
a areia, perto de nós.

estávamos sós,
tu e eu,
e queriámos cantar
aquela doce canção
que o vento veio ensinar;
mas assim o vento a trouxe
assim a brisa a levou
pelas areias da damba.

e eu choro,
esperando ainda,
que volte a canção tão linda
que o vento nos ensinou.

Aires de Almeida Santos

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Os corpos perdidos

quem desabrochou as horas dos céus?
quem pisou as flores para povoar
os vazios dos montes tão espaçados?

e agora inventou a primavera sem sombra?!

para lá dos fumos, dos destroços
mal oiço as aves testemunharem
os sonhos, os episódios mais cruéis

dos corpos que não pisaram as flores.

João Maimona

domingo, 3 de abril de 2011


Bastão tchokwe com cabeça humana

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Já não é...

já não é a noite que promete algum desejo
e o amanhecer não reflecte mais quimeras
no olhar.

aquilo que era sol em cada verso
são os caídos,
é a queda
de cada pedra companheira
movida ainda sabe-se lá por que impulsão
após a morte!

as palavras que prometem
vêm depois que silvam balas
e a decisão dos homens.

restamos nós rochedos brutos da montanha
face voltada ao amanhã que sempre nos guiou.
caíremos não importa.

nós somos o carvão da luz futura.

Costa Andrade