quarta-feira, 30 de março de 2011

Contrato

como poalha cinzenta de cacimbo
descera um doce lucilar dorido
no olhar familiar com que no quimbo
a todos deslumbrara… apetecido…

várias luas, então, eram passadas
- nova promessa o verde renascido –
inda doíam lágrimas choradas
pelo que fora, um dia… compelido…

e, à noite, enquanto os velhos na fogueira,
lembrando companheiros já caídos,
pareciam parados vida inteira,

julgava, ela, nos ventos, os vagidos
antes sonhados a nascer na esteira
como frutos do seu ventre saídos.

António Cardoso

segunda-feira, 28 de março de 2011

Seripipi de Benguela

eh! seripipi de Benguela
escuta aquela canção.

parece pardal de Luanda
cantando na escuridão.

levanta voo, seripipi
do galho desta prisão.

leva no bico uma esperança
ao ninho do teu irmão.

Ernesto Lara Filho

domingo, 27 de março de 2011

Padrão português na foz do Rio Zaire

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sá da Bandeira

retouçando louça nas espaldas da chela
sá da bandeira tem
policromias, fulgências, feitios e transparências
de um pratinho de louça
de rouen.

mal ainda o sol aflora no horizonte, já ela -
nas faces da manhã - a frescura do clima
no sangue de luz - uma alegria vermelha e sonora
do vermelho de que se cora a maçã
que a terra óptima produz - já ela
pela voz argentina dos regatos e das levadas
canta a cavatina da fertilidade
que lhe ensina a fonte
da senhora do monte!...

cidade académica! cidade que marca
nos pasinhos da criançada
que a caminho da escola
as ruas jubila
nos passos firmes dos jovens do liceu
o ritmo inicial da marcha em crescendo
do progresso da huíla! do progresso de angola!
em ti, sá da bandeira,
maravilho-me do estupendo manifestar dos elementos:
- as chuvas torrenciais, o estrondo do trovão,
a fogagem poética do vento
voando a tua saia azul - do azul so céu...
e pondo ao léu as rendas-nuvens da tua combinação...

amo, sá da bandeira,
os cromos miniaturais
da tua paisagem:
- o felpo verde-pompa da capa cinzenta
que assenta na lomba fria dos teus morros, e alfombra
o entre-casario devoluto
dos teus bairros...
o abandono humilde e hirsuto
dos teus eucaliptais...
as devesas... as tuas hortas... os teus pomares...
e o reposteiro simpático de trepadeiras
espreguiçando-se em flores nas tranqueiras
e escondendo a intimidade ciosa dos teus lares...

adoro a graça mansamente provinciana
e apaixonante
dos grupos de tuas moças
passeando em torno ao jardim municipal
à bondade envolvente e amorosa dos teus crepúsculos
e sob o olhar cansado e vigilante
do senhor câmara leme...^

amo-te, enfim, na harmonia pictórico-sinfónica
das tuas louçanias
fulgências
sonidos
e transparências
de um...
pratinho de louça
de rouen...

Viriato da Cruz

quarta-feira, 23 de março de 2011

Os fabricantes de palavras

tinham óculos, casacos, firmes gestos:
fabricavam palavras.
em seu jogar, eram gentis, honestos:
fabricavam palavras.
fingiam sonhos altos ao falar:
fabricavam palavras.
cúpido ardia um brilho em seu olhar:
fabricavam palavras.
propunham, eloquentes, seus perfis:
fabricavam palavras.
seus dedos se estendiam, preensis:
fabricavam palavras
em ária transformavam o alheio pranto:
fabricavam palavras.
mas um tremor os percorria enquanto
fabricavam palavras.

Mário António

segunda-feira, 21 de março de 2011

Quero uma noite de fantasia

quero uma noite de fantasia
uma noite de futuro
para toda a minha África.
não quero nada mais que esta noite.

estão os meninos adormecidos,
não há cazumbis nos caminhos,
estão as fomes interrompidas.

ouve o quissange!

noite madura e larga
como o horizonte,
mochos calados,
rios de eternidade,
aromas sublimados,
oração do silêncio.

ouve o quissange!

germinam as sementes
no pensamento das gentes,
não há maldições no vento,
não sussurram os mistérios,
não há rusgas nos quimbos;
descem as bênçãos
até aos mortos de apelidos perdidos.

ouve o quissange!

a paz e o amor
caminham de mãos dadas na noite.
no mundo tudo está certo,
o verme e a pedra,
a flor e a estrela
tudo está em ordem.

ouve o quissange!
ouve… ouve…

Manuel dos Santos Lima

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pungo-Andongo

nos ramos da flora despenteada
tem voz de adamastor a voz do nada
no alto destas pedras abismais
há saltos suspensos pelo ar
há visões de exércitos imortais
há esqueletos correndo a gritar
a natureza à terra as pedras deu
as árvores, os leões, o céu
o homem passou o esforço ficou
mas pungo andongo não mudou
sangrenta a interrogação prevaleceu.

Henrique Guerra

quarta-feira, 16 de março de 2011

Boogie-Woogie

canta, calloway
geme os teus sons roucos
que se vão estrangular no vácuo
da vida

canta, armstrong
grita em músicas alegres
tuas finais de choro.

canta, robeson
tua música ambígua
triste, alegre, triste.

saxofones,
clarinetes de harlem

áfrica
multidões, cantai!
contai a vossa história
em audazes ritmos
de antifonias soluçantes.

cantai
mostrai-me os fragmentos
de corações quebrados
nas síncopes musicais
captadas
das florestas do congo.

cantai
vossos ritmos
respirados ao luar
quentes como a luz sensual
das fogueiras
tristes como o vosso drama.

entoai
vossas orgias de sentimento
história duma raça.

ó mágicos do som,
contai a nossa história.

Agostinho Neto

segunda-feira, 14 de março de 2011

Navegar

os dedos dedilham
harpas ou kissanjes
espírito eterno e palavras.
Eu não sei realmente
quem os comanda
e a poesia navega
por entre velames de mim
e dos muitos barcos
distintos onde aportei
naveguei o mesmo mar
antigo mas de périplos
sempre distintos.


depois de cada desembarque
escolho um outro barco
para nele voltar a navegar
por entre velames de mim
-dedilhando harpas ou kissanges-
solto dedos eternos e poesia...

Namibiano Ferreira

sexta-feira, 11 de março de 2011

E pede o silêncio

espero na praia
as ondas, a espuma,
e chagam-me conchas,
presentes de bruma
e barcos azuis
com lemes de além
destinos de praia
e de olhos também.

e a noite me vê
ainda a esperar
que tragam poemas
dos livros do mar
teus barcos azuis
que chegam agora
à praia dos olhos
à praia que chora.

e pede o silêncio
urgente que saia
dos olhos de barco
meu corpo de praia.

Manuela de Abreu

quarta-feira, 9 de março de 2011

Nocturno

veio até mim a noite
e ficou presa nos meus cabelos, negrejando...

veio até mim o silêncio
e ficou suspenso comigo, meditando...

veio até mim a aragem acariciante
e o som distante
do batuque selvagem...
e os gritos roucos
das danças macabras e voluptuosas...

veio até mim
o perfume subtil das rosas do jardim.
veio até mim,
suavemente,
a estranha perturbação do momento...

Amélia Veiga

segunda-feira, 7 de março de 2011

Tardes sombreadas

nas tardes sombreadas de carmim,
quando oiço o mar cantando a minha dor
e o sol à despedida muda a cor...
mostrando-nos o dia já no fim...
nas tardes de acalmia e sempre assim
serenas, como um sonho embalador,
que aumenta muito mais o meu fervor
a tudo o que observo no enfim...

nas tardes, nestas tardes sempre lindas,
que dão lugar à noite, sem tormenta,
em horas que se seguem quase infindas...
distante por me ver, sem te encontrar,
sózinha sinto a sede que me alenta...
e ausento-me de mim, a divagar...

Maria Joana Couto

domingo, 6 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Prima lux

piquem-me, piquem-me as veias
a ver se corre sangue
rasguem-me os olhos e o peito
a ver se encontram músculos batendo!

piquem-me, sim,
e olhem – quero que olhem
esta quietação boa que circula por mim!

não há sangue nem músculos
mas o luar e um rosto
e uma paz como a dos desertos
e um quê de desgosto.

eu não sou mais eu;
sou a natureza:
a minha alma é a sua transparência da luz
e os meus nervos os braços das árvores.

e se neles houver gota de orvalho
é aquela lágrima triste que consola.

sou feliz
porque o luar entrou em mim
e iluminou as sombras negras.
(este luar que acaricia e beija
como a voz de alguém que se ama!)

gostaria de ser poeira
num qualquer caminho
para gozar melhor
esta tranquilidade infinita…

gozar no silêncio bom das coisas
o prazer de ser pequena;
pequena para albergar a complexidade
do sentir estranho que me anima.
(piquem-me para ver o que me enche…)

a lágrima pura que não verti
é o meu excedente de felicidade!


Ermelinda Pereira Xavier