segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Confissão

no silêncio pesado do caminho,
ouviu-se um passo, cadenciado
na firmeza das horas decisivas.

a sentinela bradou:
- quem vem lá?...

o homem podia ter respondido
qualquer coisa parecida
com: “gente de paz”…

mas não. onde a paz,
se no seu peito ardiam agonias
enraivadas,
se nos seus olhos boiavam
visões de fogo e de morte,
e as suas mãos,
(ó belas, generosas mãos!)
vinham ainda tintas
do sangue dos camaradas?...

não trocou portanto as falas.

Respondeu simplesmente, sombriamente:
- eu

E a sentinela, varou-o com três balas.

Alda Lara

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Uma das pedras negras de Pungo Andongo. Esta é conhecida por "Cabeça da Velha".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Clandestinidade

bicho, nas brenhas do meu ser acoitado,
babando de vida a carne a devora,
supura fogo e o sangue vai sorvendo...

bicho ardendo, inviso, inculcado
d'inconsútil flama a pele me lambe,
meus ossos funde, minha vontade cinde,
torpe noite cavalga à rédea solta:
minha, a noite, látego, bálsamo é.

sem lua nem sol, ínvia treva estruma:
que letal, secreta colheita a vir
(bicho, roendo algures - t'esconjuro!),
a flor, em carne mofada a florir,
iludida e pasmada,
anunciará.

Tomaz Kim

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Canto de amor e esperança

cantar as estrelas,
cantar o luar,
cantar as canções!

barco,
oh meu barco da vida!
são maiores os teus porões
que as tábuas livres
onde possamos andar,
onde possamos sonhar.

cantar as estrelas
cantar o luar,
cantar as canções!

barco,
oh meu barco da vida!
são grandes os teus porões
e vão cheios! neles vai
morrendo à míngua de tudo
a humanidade algemada.

cantar a esperança,
cantar a ternura,
cantar o amor!

barco,
oh meu barco da vida!
sim, cantar a ternura,
sim, cantar o amor...
alumiarão as trevas dos teus porões.

barco,
oh meu barco da vida!
é muito maior a esperança
que o fundo dos teus porões...

Lília da Fonseca

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Looking around

1. o ar translúcido da casa
treme de emoção
hoje é dia de farra

2. o meu amor
está com o olhar levemente entristecido
será que a tenho amado de menos?

3. o gordo queco*
na estante sorri-me
achar-me-á
um tipo de sorte
ou estará a gozar-me?

4. raparigas na praia
reduzidamente vestidas:
incêndio glorioso
ofuscando o sol

5. a tua foto no quarto
- lembras-te –
floresce todos os dias
ainda que eu não lhe olhe

6. a lua assim
em quarto crescente
parece uma foice
a que só falta o cabo

7. uma mulher magnifica
dança no meio da roda
remexe, ergue os braços
e sorri
depois chama um pra massemba fatal
a vida plena vive
no corpo dessa mulher reencontrada
no meio da roda

8. estavas numa mesa atrás da minha
apenas a minha máquina fotográfica
te captou
agora levo-te no coração
até morrer

9. pôr do sol:
lento suicídio do sangue
no mar

10. no asfalto de aço
um pássaro instala o pânico
no trânsito
eu paro    ele
lança-me um olhar irónico    cúmplice
e levanta voo

João Melo

domingo, 13 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ngongo

é por ti que o sol morre de paixão
por ti é que a marimba e o qissange
vibram, e o negro poeta canta e tange
as fibras do seu próprio coração

por ti suspira a brisa, o vento range,
e a noite veste luto – cerração…
por ti é que há luas a solidão,
e o coqueiro da ilha geme e plange.

é por ti que o mar canta no seu pranto,
por ti é que o mar chora no seu canto.
e as ondas são batuques a cantar

e a chorar tua morte, ó ngongo, ngongo,
vítima heróica do primeiro dongo
que andou no mar e naufragou no mar!...

Geraldo Bessa Victor

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O filho esquecido

ovelha da anhara
que perde o anho
chora.
condoído,
o pastor corre a treva.

o homem que me nasceu e abandonou
em qualquer parte
da terra
sorri para a vida
como quem nada perdeu.

Jorge Macedo

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Obituário

Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;

depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão
sem nada para acrescentar à morte
sem nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.

João Tala

sábado, 5 de fevereiro de 2011

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Poema da Farra. Do grande poeta Mário António na inesquecível voz de Ruy Mingas. Há uns anos numa recordação do "4 de Fevereiro", data importante na História de Angola e do povo angolano, que marcou o primeiro passo rumo à independência, lembrei-me do poeta e de Jorge Amado.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Colheitas

de dez em dez anos
cada círculo
completa sobre si mesmo
uma viagem
nasce-se, brota-se do chão
e dez anos depois o primeiro
forma-se espera e cai
por gravidade
ao vigésimo oitavo dia

entre dez em dez anos
prepara-se
para a semente
a terra
aos vinte surge
o arado
a chuva
o sorriso
alguns dez anos depois
espera-se o fim
de vinte e oito
em
vinte e oito dias

Paula Tavares