segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Em cada manhã, de longe

de longe a cidade
chegava à memória
batendo com dedos
de sombras nos laços
que azuis rodeavam
o tempo sem mar
do nosso intervalo
por dentro de abraços.

de longe também
chegavam navios
do tempo do mar
ao tempo dos cedros,
navios, palavras
e rosas vermelhas
em ramos nos olhos
e odor nos segredos.

e o longe era ali
naquela ternura
de cedros falando
de mares e rios,
um cais no planalto
em cada manhã,
um mundo nos olhos
em cada navio.


Manuela de Abreu (1939)

Nasceu no Huambo. Os primeiros poemas foram publicados em 1972 na página “Panorama de Artes e Letras”, do Diário de Luanda.
Tem ainda colaboração em “Artes e Letras” d’A Província de Angola e “Convergência” de Ecos do Norte.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poema

Eis-nos aqui no caminho
traçado por nossa mão.
cada braço traz um punho
e cada punho um punhal.

bandoleiros na vida,
vida errante era o destino!
nas costas nasceram traços
da vida dura, sem pão.

rugas dos covais da vida
cemitérios de ilusão!...
mortos, mortos mas com vida
quase à beira do chão.

quase à beira do chão
rastejantes, vermes, podres!...
pobre miséria do mundo
só o dinheiro é patrão.

só o dinheiro é senhor
dos vermes sujos do chão

cada verme traz um punho
com uma faca na mão.

Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um vento - a erosão do tempo

a palavra dorme
no flanco das serras
faz nuvens de tempo
e cava ribeiros
com gotas de som.

a palavra medra
no fundo das covas
exala vapores
de chamadas mortas
desfaz-se em poeira
de cáustica cor
adere às camadas
mais finas da pele
desfaz as mãos dadas
do amor indeciso
e embala as crianças
negras que arrefecem.

a palavra invade
o pudor das grutas
as velas dos bosques
e o céu das lagoas.

a palavra esculpe
nas furnas de grês
a fresca aventura
de meninos nus.

a palavra grava
de leve nas pedras
a herança do gesto
e a glória do sono.

a palavra está
na cama dos fósseis:
dorme há milhões de anos
nas asas do raio
que petrificou
a aurora dos dias.

a palavra roda
no selim da infância:
marítima luz
ladrilho de sal
um disco que disca
com centro na conta
e amputa a paisagem
ao nível da idade.

Ruy Duarte de Carvalho

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Casinhas pequenas

casinhas pequenas
abrigando
histórias das histórias da história
se fazendo
e inda outras

casinhas pequenas
abrigando
famílias das famílias da família
se fazendo
e inda outras

histórias das histórias da história
e inda outras
famílias das famílias da familia
e inda outras
se emaranhando
em um novelo
que
cresce cresce cresce
em casinhas pequenas

Arlindo Barbeitos

domingo, 16 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Amor

assim de espuma e sal teu corpo a navegar
num meio-dia a onda e sol liberto
na conseguida fúria de estar perto
dia após dia para lá do mar.

assim nossa conquista de criar
na incerteza o que fazemos certo
um sol todos os dias mais desperto
dia após dia para lá do mar.

assim na fúria de saber amar
palavras poucas de um viver inquieto
nas noites esquecidas de luar.

assim como uma onda sempre a transformar
o amanhã numa manhã de afecto
dia após dia para l´´a do mar.

Manuel Rui

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Era uma vez

vôvô bartolomé, ao sol que se coava da mulembeira
por sobre a entrada da casa de chapa,
enlanguecido em carcomida cadeira
vivia
- relembrando-a -
a história da teresa mulata

teresa mulata!

essa mulata teresa
tirada lá do sobrado
por um preto d'ambaca
bem vestido,
bem falante,
escrevendo que nem nos livros!

teresa mulata
- alumbramento de muito moço -
pegada por um pobre d'ambaca
fez passar muitas conversas
andou na boca de donos e donas...

quê da mulata teresa?

a história da teresa mulata...
hum...
vôvô bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira
adormeceu
o sol se coando da mulembeira veio brincar com as moscas
nos lábios ressequidos que sorriem
chiu! vôvô tá dormindo!
... o moço d'ambaca sonhando...

António Jacinto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quando a hora chegar

a hora
que anda na angústia forte da esperança
e na alegria trágica e cansada
de não esperar.

quando a hora chegar...

essa hora
com bandeiras, bandeiras e bandeiras
e multidões vibrantes a passar
para dizer aos homens do passado,
para dizer aos homens do futuro,
para dizer presente
e continuar.

quando a hora chegar...

há crianças sem pai,
há crianças sem mãe,
que hão-de por risos novos sobre a boca
que ainda não tem pão;
que hão-de pôr brilhos novos sobre os olhos
que ainda vão chorar;
que hão-de pôr forças novas no combate
que vai recomeçar.

quando a hora chegar...

cimentada com lágrimas e sangue
e dor
e ansiedade
e medo de a perder...

ah!, levem-me também,
eu vou também!
( Eu quero ter esta certeza
se não sobreviver!)...

Cochat Osório

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

História de uma ideia franzina

na aurora de uma ideia que parte para a guerra
grisalha ainda o engano duma esperança fútil.
frágil segurança
como a prece inútil, que foi rezada em fátima.

e cresce o desengano
como um novo anátema,
guinada dolorosa
de um velho quisto.
apenas um curto momento
de piedade de nós mesmo.
apenas um momento a esmo,
chorando tudo isto...

e a bandeira a duas cores que flutua orgulho
caída na armadilha do tempo inexorável
desbota lentamente
enche-se de humores,
de pus e de aguadilha,
do veneno delicioso do tortulho,
e balança no alto do mastro imponente
uma dança velha e lamentável
como a marcha trôpega de um veterano.

no curso de uma ideia que voltou da guerra
e esperança empalidece,
cala-se o choro,
vai mirrando a prece.
fica apenas o sóbrio desengano
que não pontifica, não constrói
nem erra...

Henrique Abranches

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A ilha de Moçambique

ilha de oiro e angustia
feita de sol e de prata
marfim talhado em relíquias
cobre batido do vento
num moinho de saudades.

fortaleza escancarada
a memórias esquecidas...

senhora do baluarte velando
as brancas velas do canal.

sermões de s. francisco xavier
guardados nas rochas de coral.

riquexos vagueando ao sol
brancas praias sonolentas
enfeitadas de saris e cofios
brancos, pretos, encarnados

e rostos cor da verdade
de viver num monumento
de prata, de oiro e de cobre
cobre batido do vento...

portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
monumento, monumento,
de memórias esquecidas...

além-portas de marfim
paredes meias com a História
dentro da fama e memória
para que nela sempre fique
a ilha de moçambique.

Neves e Sousa
















segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Romance em Luanda

coqueiros esguios – leques ao vento
abanando a ilha.

um dongo flutua
na baía.

e ela, a negra maravilha
condecorada com reflexos de prata
com que o céu a está beijando,
com que o céu a está vestindo,
- adormeceu sonhando
placidamente sorrindo.

nas águas verdes da baía calma,
caem pétalas vermelhas
de uma linda flor de ónix!

e o timoneiro, um preto atleta,
jovem pescador
e um brutal cupido,
- é o deus do amor
em bronze reproduzido!

nas águas verdes da baía calma,
caem pétalas de sangue,
duma flor já desfolhada…

um dongo flutua
na baía.

vai rompendo a madrugada!

Tomaz Vieira da Cruz

domingo, 2 de janeiro de 2011