sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mpungu ia Ndongu

desliza a história nos gestos virgens
do entardecer

e nos ventres-espaços
rasga o sol a palavra desflorada nas searas
pelos mgumba

Samuel de Sousa

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Recordação

de noite mui linda
tu queres, arminda,
quem lembre-te ainda
um sonho de amor?
atende bondosa,
a chama vap'rosa
do teu trovador.

nos céus esmaltados
de brilho fadadas -
de encantos rodeadas
se viam luzir -
estrelas mimosas -
mui belas, - vaidosas -
tão magas, - radiosas -
de casto sorrir!

mais longe, distante,
também radiante
se via brilhante
a lua a fulgir; -
e os mares bramindo
dos ventos fugindo -
estava sentindo
seu forte rugir!

na popa assentado
de um barco açodado
por ventos soprado
me pus a pensar
na vida sonhada
que eu tive passada
contigo gozada
de mago cismar!

às vezes eu cria
com forte magia
que só eu te via
comigo a folgar,-
às vezes pensando
que ouvia-te arfando
teu seio tão brando
no meu a poisar!

então extasiado,
do mundo olvidado,
contigo abraçado
me pus a beijar
teus lábios mimosos,
teus olhos fermosos-
que vinham ferv'rosos
a mente escaldar!

e em fogo divino,
mui casto e mui dino
vagava sem tino
em doce candor
ao teu abraçado,
não sei se acordado,
meu corpo extasiado
nos sonhos de amor!

depois despertando,
meus olhos fitando,
te estava mirando
no teu dormitar.-
como eras formosa!
quanto eras mimosa,
arminda ditosa,
no teu respirar!

travando da lira
que tanto me inspira
nos sons que delira
me pus a trovar.-
cantei o teu rosto-
divino composto -,
a mim só exposto,
que o sei adorar!

por cum'lo de anelos,
teus belos cabelos
da cor dos meus zelos
me pus a afagar: -
mas eis que desperto
e vejo-me - é certo -
já ter descoberto
que é tudo um sonhar!

eu vi-te! - e acordado
o sonho gozado
agora lembrado
não posso esquecer!
fugiu-me a ventura
tão maga e tão pura -
se o sonho não dura
porque hei-de viver?! -

Maia Ferreira

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Literatura

lábil, embora, avulta e adensa
o mais que pressinto:
eis, portanto, o limiar que transpõe
a dádiva consentida
e três vezes negada (como convém)
na ausência do canto do galo
pela madrugada.

vêm depois os dias:
o horáriio a cumprir, a torpeza, a mesura;
o pão nosso, ganhado à sorte:
que a sorte é de quem a diz negar
e sábio a tece.

não importa o que se esquece:
fingida estratégia imposta
a peregrinação pelos cafés:
o sim e o não e o resto,
e tudo mais
e mais
que a glória proclama.

Tomaz Kim

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Aos novos gladiadores

a vós,
à vossa dor,
- como o eco que se prolonga
e se escuta,
eu dou os versos que faço,
como quem dá um abraço,
a vós,
os que sofreis,
os que quereis e não podeis,
os que sonhais e acordais,
- eu dou a minha tristeza
que trago presa.

a vós,
ao vosso sacrifício,
- à vossa morte,
aos vossos passos como um indício,
- eu dou a mão camarada,
e não peço outra mão dada.

a vós,
meus irmãos grandes,
meus irmãos heróis
ofereço quanto posso
- este imaginar de estrelas e de sóis.

e se alguma coisa mais vos for precisa
(o sangue que se adultera,
a vida que se não realiza,
a vontade fraca e mera)
- irmãos, dizei-o já,
que tudo quanto possa se dará.

Antero Abreu

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mensagem do Natal

a vida não pertence a este ou àquele,
não pertence a ninguém, ela é de todos;
os engenhos de morte pertencem a este ou àquele,
e matando e destruindo e aniquilando,
são a vontade deste ou daquele
de matar, de destruir, de aniquilar
a vida da qual não são os donos.

olha o mapa e os caminhos,
os caminhos que vêm de toda a parte:
que frémito trespassa os corações,
que barreira de mãos erguidas em protesto,
que vozes roucas de gritar
não, não, não...
não queremos guerra a dividir os homens!

Lília da Fonseca

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Reflectiu o arco-íris

reflectiu o arco-íris
as suas tonalidades múltiplas
sobre as pétalas virginais;
do fundo da terra
subiu até elas o perfume quente
das essências.

e logo foi rubra e ardente
a rosa tropical,
pálida a magnólia,
solene o cravo.

nelas buscaram cor
as mariposas
e encheram as suas taças
os besouros;
nelas o poeta e a abelha
encontraram a mais requintada doçura.

brancas, verdes ou amarelas,
amo-as a todas
na sua pluralidade colorida,
na sua fragilidade perfumada.

azuis, vermelhas ou roxas,
amo-as a todas
e peço-as
para os meus mortos
passados e futuros,
mortos da terra e do mar,
da escravidão e da liberdade,
peço flores para as novas bandeiras de África
que eu vejo desabrocharem no horizonte.

Manuel dos Santos Lima

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Colar de missangas

naquela rua da praça…

foi ali que a encontrei
e conheci
e gostei
de a ver passar
com a quinda na cabeça…

não notei as cores dos panos,
não notei o que levava
para vender.
só reparei
e gostei
do seu colar de missangas.

soube depois
que era recordação
dum homem com quem vivera…

um dia
- quantos já passados –
estava ela na baía
quando o guerreiro,
fogueiro
ou marinheiro
de cabotagem,
apareceu por ali.

encontrou-a
convidou-a,
ela foi
e ofereceu-lhe o colar.

depois seguiu a viagem
e a vida seguiu também.

meses passados
nasceu-lhe o filho.
gostou,
ficou contente.
Depois
morreu-lhe o filho.
chorou,
enlouqueceu de repente.

e agora
todas as manhãs
quem quiser a vê passar
a caminho da quitanda
com a quinda na cabeça.

e conta os dias
passados á espera do filho,
pelas missangas
rubras, da cor das pitangas,
que vai pondo,
dia a dia,
no fio do seu colar.
ontem
quando a vi passar
o colar
tinha dez voltas…

Aires de Almeida Santos

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Paisagem do nordeste

rio     estátua
braço sem carne

chuva no mar
em terra seca

sol na paisagem
terra em desgraça

fome nos lábios
fome nos olhos

ossadas brancas
urubus em volta

terra em brasa
ar calcinado

plantas com fome
homens com fome

fome nos olhos
no ar morte

Jofre Rocha

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Filha do deserto

vi-te surgir um dia
como flor agreste,
nascida ao pôr do sol, beijada pela tarde!

a noite te cobriu!

mas sobre o vale terrestre
raiou uma esperança!

e veio uma certeza,

acompanhando a dor
na solidão
que arde!

Maria Joana Couto

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O poeta deve

o poeta deve
manter-se perfilado
em andamento

respeitar o sinal
no cruzamento
manejar assim

o armamento
saber guardar
recolhimento

e não deve
tocar douvido
o instrumento

extraviar
o fardamento
com prometer

o comprimento
deste burocrático
regulamento

David Mestre

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os monangambas

rooonca-os o camião
no jingololo da rua
eles são negros
e levasm o sol no peito

monangambéééé...! manamgambééé...!

passam esquinas de cimento
passam largas avenidas
e ferem-nos beros e silvos
golpeia neles o vento

monangambéééé...! manamgambééé...!

levam nos rostos firmeza
jimbamba se sonho e terra
vão de frente para os gritos
vão-lhes sentindo a dureza

monangambéééé...! manamgambééé...!

deixam rastos nas estradas
(já é horizonte o seu manto)
pistas reencontradas
e punhos cerrados de espanto


monangambéééé...! manamgambééé...!

passam os que servem a vida
com a força do seu suor
ficam nas ruas os desígnios
que dos seus passos nasceram

Arnaldo Santos

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Poema da verdadeira liberdade

a oração que rezo
num templo fora do mundo,
não tem palavras para merecer o céu.
tem apenas silêncio grave e fundo
a gritar no púlpito que sou eu...

bençãos inundem a fronte
dos que já não têm voz
para suplicar
e sofrem os lobos do montes
sem uma pedra atirar!...

mereci a paz
e a ausência de tudo!
sufoquei a voz
e o meu corpo está mudo...

Amélia Veiga

domingo, 5 de dezembro de 2010

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ilhas de ronda

deixámos muhambas e sementes
deixámos jóias e macutas
nos olhos da ronda secretas sombras

atravessámos sem ferir a água
se ferimos
não pudémos tocar mais leve
o som de existir

engolimos tosses
domesticámos gritos
enfeitiçámos os cães
pra não ladrarem

toquem já xingufos
desde o talamungongo
até na honga

trazemos o sol
na ponta da coragem

Jorge Macedo

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

TONTURA

Ainda apagam pálpebras de volta à tontura
ainda o sentimento da nossa longa história
a ruína vai da notícia à revolução

palavras mortas nunca mais preenchidas
os rios demorados no sintoma dos países
e tudo passa e o poema indaga
o dia que acontece como uma ruína.


João Tala (1959)

Natural de Malange. Médico de profissão iniciou a actividade literária quando cumpria o serviço militar.
Foi co-fundador da Brigada Jovem de Lieratura.