segunda-feira, 29 de novembro de 2010

As acácias da minha rua

cortaram as acácias rubras
da beira da minha rua.

cortaram as coisas mais lindas
da pobre da minha rua.

como às crianças loiras
cortam madeixas douradas…

… assim fizeram à rua.

pobres acácias tão rubras
da minha beira da rua.

ficou só a terra nua
ficou só a terra nua

pobres acácias tão lindas
da beira da minha rua…

Ernesto Lara Filho

domingo, 28 de novembro de 2010

"Pacaça", pintura de Neves e sousa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O mar visto da cadeia

o mar é largo
e profundo.
tão largo e profundo,
que cabe todo inteiro
e amargo, no fundo
do simples olhar que lhe deito...

estendido e liso,
refeito como um ventre de mulher
apetecido sem aviso,
já teve sereias e monstros,
ossos a apodrecer,
para ser, agora,
de um qualquer...

desecanto a apodrecer-
-me o canto, nesta hora?
- só se for nas areias
onde morro monótono,
e nas marés-cheias
de tanto luar e espanto
na memória...

já o tive
insatisfeito,
na cova da mão,
no búzio dos ouvidos,
e no sonho que ainda vivo
de uma doce ilusão...

inventei-lhe
desaparecidos ecos,
talvez reinos perdidos,
tesouros, conchas,
algas e palácios
encantados de mouros...

depois ficou só o mar
vulgar, indigesto,
azul, verde, prateado,
"grande, grande...",
com o resto afogado
no coração...

chegou então a hora
do mar lúcido
sem papão,
apreendido,
económico,
assassino, embora,mas também elo de ligação...

António Cardoso

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Regressarei ao sul

quando os pássaros
cantarem nos ramos altos
do velho imbomdeiro
que secou…
quando os cuéles
poisarem pela manhã
na antiga mulemba
que o meu avó
plantou,
eu regressarei ao sul,
pintarei o rosto
com caulino
e farei uma nova ondjélua
naquele campo santo
onde a morte estacionou…
dançarei o cuhéla
com zagaias ungidas
que trespassarão as sombras
que sufocam
as nossas vidas…

Jorge Arrimar

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

As trevas

choro o meu destino mudo
no seu tronco solitário
que tem sabor a inerte tronco

e contra a água sem fonte
abranjo o sinistro olhar
que ilumina e atravessa

a glote obstruída.

e quando vacilo nas trevas
(apenas minhas na noite incendiada)
vejo lágrimas virgens descerem
como estrelas sem corpo
as nuvens da janela
aberta sobre a primavera.

e as paredes da última argila!

João Maimona










sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Homem-terra

Ao Vieira Lopes

a vida ali parou
como se o tempo
caprichasse
tornar-se algum rochedo.

o homem fez-se igual ao tempo
e do corpo
correm bagas de suor.

os montes
não mais voltaram a cobrir-se
de verde
ou de mensagens doutra cor.

… somente a mudez arrefecida
dos vastos horizontes
e gemidos nos espaços.

ao lado
a passos largos
iluminam-se avenidas indiferentes
aumenta a gritaria do ferro
e do cimento
crescem gentes ritmadas
ao som dos atabaques
sobre agónicas
e conseguidas impotências.

até que o homem
de si faça uma certeza.


Costa Andrade

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ezuvi

canto-te toda, ó sombra feita ser,
ó corpo feito flor, ó flor da raça!
eu canto ao mundo, ao mundo inteiro, a graça
nativa do teu corpo de mulher.

canto teus lábios – sedutora taça
por onde o teu amor hei-de beber.
e canto o perturbante rosicler
do teu olhar de sonho que me enlaça…

canto mais a tua alma, lindo abismo,
para que o mundo saiba todo o heroísmo
em que tua alma vívida se integra;


para que o mundo inteiro se confunda
perante o teu orgulho de bailunda,
o teu orgulho altivo de ser negra!

Geraldo Bessa Victor

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Momento

nos olhos dos fuzilados,
dos sete corpos tombados
de borco, no chão impuro,
eis!
… sete mães soluçando…

nas faces dos fuzilados,
nas sete faces torcidas
de espanto ainda, e receio,
… sete noivas implorando…

e do ventre de além-mundo,
sete crianças gritando
na boca dos fuzilados…

sete crianças gritando
ecos de dor e renúncia
pela vida que não veio…

na boca dos fuzilados
vermelha de baba e sangue,
… sete crianças gritando!

Alda Lara

sábado, 13 de novembro de 2010

Dos tempos da guerra e da esperança

No passado dia 11 de Novembro, aniversário da independência de Angola, o pintor Mário Silva expôs, na sede da Magenta, alguns cartazes do MPLA, da sua colecção particular. Foram-lhe oferecidos em Luanda por aquela altura, não se lembrando o artista de quem lhos ofereceu.
Datados de 1976, os cartazes retratam os tempos de guerra que então se vivia. Mas retratam, também, esperança.
Se a paz vingou, a esperança está ainda por cumprir. A paz teve um preço exorbitável. Contudo valeu a pena.
A esperança, essa, continua viva. Tanto que a exposição transportou-me para uma declaração recente de Mestre Luandino:
“Ainda hoje acredito que é possível aquilo com que sonhávamos.
Aprendi no Tarrafal que nem que dure 50 anos, 60 anos, a situação actual é apenas um desviozinho no curso da História. Claro que gostava de ver tudo isso em vida minha…”












O pintor Mário Silva (à direita na foto) conversa com o médico Francisco Balonas, que trabalhou com Agostinho Neto

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ama negra

teu corpo
gordo
redondo
feio
mas belo.

teu rosto largo
nariz largo
olhos grandes
cabelo lanoso
tudo grande
nasceste assim
feia mas bela.
as crianças gostam de ti
da tua bondade e paciência
mãe santa
ama de muitas crianças.

aquele menino branco
antónio
não gosta de mais ninguém.

Tomaz Jorge

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Monumento a D. José, Lisboa

opulento pedestal
luxuriante de vida
tropical
sobre que pousas
- rei europeu
ou marajá hindu?

“…da arábia, da pérsia, da índia…”
ausente da pureza deste céu
rei europeu
apetecendo palanque e especiaria
que país foi o teu?

esta nesga de Europa
com vinhedos
ou sonhadas florestas
onde enviavas a correr
fidalgos-cavaleiros
criados de teus paços?

teus cavalos ligeiros
ou pesados elefantes
tropicais?...
- tuas glórias distantes
nunca vistas
sonhadas
marajá desterrado!

Mário António

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Buganvília

branca a buganvília explode
no odiado muro em frente

à volta a vida berra crente
e o negro sangue estanca

vermelha a buganvília
rompe o muro da frente

Luandino Vieira

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Nocturno para a minha geração

lágrimas roubam a noite...
as cordas e as canções
dos nossos violinos
são de fel e vinagre.

sós! sós em noites de febre,
procuramos o sonho
por nós nunca sonhado,
por nós já esquecido.

assim vivemos a noite,
assim nela morremos:
na solidão das sombras
impalpáveis, serenas...

(o nosso exílio
começou no ovário!)

Tomaz Kim

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Rimance da Menina da roça

a menina da roça
está no terreiro
cosendo a toalhinha
pró seu enxoval...
- "que céu tão lindo!,
e o encanto da mata!...
ai, tanta beleza
no cafezal..."

a menina da roça terá poesia
terá poesia nos olhos de mel?

a menina da roça
chega à janela
e na estrada branca
a vista alonga...
- "é o carro a vir?!"
não... é o bater compassado
do aço de enxadas
dos negros na tonga...

a menina da roça tem é um namoro
tem um namoro com um motorista

a menina da roça
veio á varanda
e os olhos erra
no verde à toa
- "está ele a chegar?!"
ah... são negros pilando
dendém para azeite
na grande canoa

(prucutum, lá do telheiro,
vai chamar o meu amor)

a menina da roça
acorda à noite
ouviu um barulho
na escuridão
- "o carro chegou!..."
oh... é o pulsar
apressado
do seu coração

(porque bates tão depressa, coração alucinado?
coração alucinado, espera que o dia amanheça)

- "já viu a minina?..."
"hem... tem cor marela
do mburututu..."
- "e não come nem nada..."
- "e os olhos de mel
'tão-se afundar
num lago azul
que faz sonhar..."
conversam as negras
à boca apertada

(minha dor, ninguém a saiba -
não há peito em que ela caiba)

a menina da roça
escuta dorida
a triste canção
que vem do rio.

que vem do rio? - que vem do peito:
baixinho, lá dentro,
chora de amor
o coração

menina da roça - águas do rio
saudades da fonte... desejos de amar.

Viriato da Cruz

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A manga

fruta do paraíso
companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
dúctil
como se de mantos
se tratasse
surge a carne chegadinha
fio a fio
ao coração
leve
morno
mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
os meninos
pelo faro

Paula Tavares