quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Luuanda

Mu’xi ietu iá Luuanda mubita imã ikuata sonhi…*
(de um conto popular)
In Luuanda – Luandino Vieira

o vento de luandino
deu berrida nas nuvens
e as folhas secas
todas da mulembeira
rodopiaram diásporas
pelo chão do musseque...


o vento assobiou acordando
a insustentável leveza do algodão
que trouxe a prata líquida
a cantar bagos de chuva
sobre o quotidiano pobre e sujo
das areias e vielas do musseque.
a água do céu e a lama da terra
conjugaram o vazio de políticas
amassando a pobreza esquálida
que se gruda aos olhos de quem passa:
homens, mulheres e crianças
são como seus casebres feitos de lama,
lama suja, lama triste do musseque
e a chuva-prata a cantar nos zincos
ghetto ghetto ghetto... denunciando
e a chuva gota após gota
cai sem lavar esta distância
sem purgar esta doença social
e a chuva gota após gota
cai raivosa sobre os zincos velhos
ghetto ghetto ghetto... chovendo
e a chuva passando com pressa
tem vergonha de chover aqui
cantando no seu gotejar:
ghetto gota ghetto gota ghetto!


Namibiano Ferreira



*Nesta nossa cidade de Luanda, passam coisas de envergonhar


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